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A jornalista Rosina Duarte foi uma das fundadoras da Alice/Foto: Luiz Abreu
Em Porto Alegre e região metropolitana circula, há 11 anos, um jornal feito por moradores de rua. O Boca de Rua é uma iniciativa da Agência Livre para Informação, Cidadania e Educação, a Alice, e já ganhou prêmios do Ministério da Cultura, Unesco e até um internacional, o International Network Street Paper, de Glasgow, na Escócia.
A ideia de promover comunicação como ferramenta de mudança social partiu da jornalista Rosina Duarte. Ela foi uma das fundadoras iniciais da Alice e está à frente das ações da organização.
O portal EcoDesenvolvimento conversou com Rosina sobre o seu trabalho e como ele mudou seu modo de ver o mundo por um "olhar menos viciado". Inspire-se.
Portal EcoDesenvolvimento.org: Como foi que você começou com o jornalismo social?
Rosina Duarte: Eu brinco que jornalismo social é na verdade uma repetição, pois jornalismo que não é social não é jornalismo. Pra mim, é o mesmo que dizer “gato felino” e “cachorro canino”. Eu sempre trabalhei como repórter na área ligada às questões dos direitos humanos. Após 16 anos em veículos, eu saí com a proposta bem clara de continuar trabalhando com os direitos humanos. Quando decidi que queria mudar, compartilhei essa vontade com duas colegas, e nós fundamos a Alice. Depois de muitas conversas, nós decidimos que tinha que ser um trabalho voltado para o direito à comunicação. A gente quer que as pessoas saibam que têm esse direito.
Qual foi o primeiro trabalho da Alice?
Foram as oficinas que chamávamos de "Educação para a mídia", na falta de um termo melhor. Nessas oficinas, a gente pegava vários eventos que mostravam como a mídia tratava as questões sociais. Depois a gente começou a pensar em trabalhar com grupos que são privados desse canal de comunicação, principalmente, a grande impressa que não documenta a realidade dos moradores de rua, presidiários, prostitutas e idosos. Falar sobre eles é super importante. Se o leitor não tiver informação sobre essas pessoas, ele não vai ter uma visão crítica da realidade. Então, o objetivo é atingir os dois lados, para quem produz a notícia e para quem lê a notícia.

Reunião de pauta do jornal Boca de Rua/Foto: Luiz Abreu
Nesse tempo vocês desenvolveram o jornal "Boca de Rua". Como ele funciona?
A nossa primeira experiência nessa vertente, que até hoje é a mais conhecida, é o jornal "Boca de Rua", que agora em agosto completou 11 anos sem nunca interromper uma única edição. Ele é produzido e vendido por moradores de rua. Todo o funcionamento é decidido pelo grupo, até mesmo em relação ao dinheiro. Ao longo desses 11 anos, o jornal já ganhou prêmios e quem decide como vai ser aplicado o dinheiro da premiação são os próprios moradores. Todos os acordos e regras de pagamento são feitos por ele.
Isso é uma experiência única no mundo, até onde sei. O Boca pertence à rede INSP (International Network of Street Papers) que são em torno de 100 jornais em 40 países. Mas a maioria deles é só vendido por moradores de rua ou tem colaboração, mas nenhum funciona dessa forma que o Boca funciona - desde a pauta ser decidida por eles, até a realização das entrevistas e as fotos, assim como a produção do jornal e a venda.
Como é a produção das notícias?
É meio engraçado, porque nenhum de nós tem cargo. Eu sou a jornalista responsável porque é preciso ter uma jornalista legalmente responsável pelo jornal.
O Boca funciona assim: a gente tem reuniões semanais, de aproximadamente duas horas, com todos os 25 integrantes. Nessas reuniões decidimos como vai ser a edição trimestral e eles recebem em torno de 35 a 40 jornais para venda, por semana. Como esse dinheiro é para eles, não é preciso nos dar explicação.
Para entrar no Boca, nós temos até 35 vagas, não precisa fazer ficha de inscrição, nem ter ficha limpa na polícia, ou deixar de usar drogas. Mas durante a reunião não pode estar alcoolizado nem nada do tipo. Para vender algum jornal, primeiro, é preciso participar de três reuniões para na quarta receber as cópias.

Além de produzirem o jornal, os integrantes do Boca de Rua também participam de manifestações, como a Marcha dos Excluídos
/Foto: Alice
Durante as reuniões são formados três grupos que irão cobrir três pautas. Eles próprios escolhem as pautas e o facilitador do grupo orienta quem deverá ser entrevistado, quais são as perguntas e quando serão realizadas as entrevistas. Depois que os moradores fazem a apuração, com ajuda de gravador e máquina fotográfica, o facilitador vai pegar o material e conversar com o grupo para montar um texto coletivo, com a própria linguagem usada pelos moradores.
Como a maioria é analfabeto funcional, eles têm dificuldade de transferir para o papel tudo aquilo que eles sabem sobre o assunto. Mesmo com a ajuda do facilitador, esse é um processo trabalhoso porque além do texto estar de acordo com que eles querem, é preciso que siga as regras de importância do jornalismo, com o “o quê”, “quando”, “onde” no topo do texto, por exemplo.
Qual o principal objetivo do projeto?
O Boca é um projeto de comunicação que não tem uma proposta assistencial, nem de tirar ninguém das ruas ou ajudar as pessoas. Mas, como a gente trabalha em parceria com o Grupo de Apoio à Prevenção à Aids (GAPA), a gente tenta trabalhar em rede essa parte do apoio à saúde e assistência.
A principal proposta do Boca é trazer a comunicação como algo transformador para a vida dessas pessoas. Para que elas saiam da condição de pedinte e passem para a situação de trabalhador, de olhar as pessoas nos olhos e conversar com elas até mesmo para vender o jornal. É engraçado como eles se transformam, como começam a falar e opinar sobre questões de forma muito viva.

Mulheres bageenses de terceira idade são co-autoras do livro Contos Sem Fadas/Foto: Alice
A Alice realiza outros projetos que não sejam com moradores de rua?
A partir do Boca, a Alice desenvolveu outros vários projetos, com prostitutas, presidiárias e mulheres idosas da fronteira com o Uruguai. Baseado nessa metodologia, mas sempre aplicando de acordo com a linguagem e a cultura de cada grupo.
Há pouco, lançamos uma trilogia de livretos chamada Mulheres perdidas e achadas. O primeiro é um folhetim feito por prostitutas chamado Mariposa. O outro é um conjunto de cartas feito pelas presidiárias, chamado Pombo Correio. E o último é o Almanaque da Maturidade, que é feito por mulheres idosas moradoras na fronteira com o Uruguai.
O Boca também tem um encarte infanto-juvenil feito por crianças de risco social. A produção dele começou com os filhos dos participantes, que vinham para as reuniões. Quando eles começaram a aparecer, a gente não sabia o que fazer, porque uma coisa é você lidar com adultos e outra é lidar com crianças, mas a gente não podia enxotá-los por ser apenas um projeto de adulto. Então a gente criou o Boquinha.
Nós os levamos a museus, teatros, passeios de barco e cinema, e a partir daí eles produzem textos que viram um suprimento infantil no jornal. Essas crianças, hoje, estão todas com famílias. Nenhuma é moradora de rua e todas matriculadas. Elas recebem uma ajuda de custo de R$ 40,00 mensais por criança, feita por doadores pessoas físicas. As mães vendem os jornais e participam de uma reunião mensal. O grupo, que se autobatizou de “Mãe Coruja”, possui uma coluna no jornal.

Em 2005 as reuniões do Boquinha passaram a ser feitas no Bandeijão Popular, perto do Estádio do Grêmio. Os adultos se encontravam na pracinha em frente/ Foto: Alice
Após 11 anos de trabalho, você ainda fala da Alice com bastante empolgação. Você ainda se sente estimulada a continuar com o projeto?
O Boca já faz parte do meu DNA profissional, não consigo me imaginar sem o Boca e a Alice. O incrível de um trabalho como esse é que eu cheguei no projeto achando que eu ia ajudar. O meu discurso não era esse, mas no fundo eu achava que iria colocar a minha experiência na profissão a serviço de um grupo. Porém, quando eu cheguei lá, percebi que não era nada disso. A gente tinha que fazer uma troca, é aquela velha história de Paulo Freire, você ensina aprendendo e aprende ensinando.
Eu tinha que ser alfabetizada naquela realidade para que alguma coisa pudesse ser boa e real, ou então seria só mais um projeto. O começo do Boca foi muito duro. Essa construção de confiança, esse espaço de realmente partilhar... Quando você vê, você está achando que a sua forma de vida é a que serve para todo mundo, embora você não diga isso. Mas esse confronto com a minha hipocrisia inconsciente foi a coisa mais fantástica que me aconteceu. Eu olhava para aquelas pessoas e me sentia surpresa, até hoje me sinto – isso ainda é uma forma de subestimar.
Outra coisa foi a conquista da alegria e do afeto do grupo. As pessoas acham que trabalhar com moradores de rua é um trabalho muito pesado, as vezes é, a gente tem muitas perdas, principalmente, no inverno. Mas na maioria das vezes é muito alegre. Na semana passada, por exemplo, teve um churrasco de um galeto maravilhoso, que eles fizeram tudo e eu fiquei de braços cruzados.
Existe um potencial de alegria e criatividade, de resolução da vida sob as piores condições, que é transformador. Porque você consegue enxergar a vida por um outro lado. Eu tenho muito prazer em trabalhar com eles e acho que esse é o meu maior patrimônio. Viver a vida dessa forma menos preconceituosa e com um olhar menos viciado.
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