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Foto: Divulgação
No Brasil temos as leis anti-racismo e de preservação da cultura negra, mas encontrar materiais que divulguem a beleza do afrodescendente ainda pode ser difícil. É de conhecimento público que os cabelos crespos, a pele escura e o nariz achatado não são tão bem vistos quanto a pele clara, o rosto fino e os fios lisos. Mas isso pode ser um problema.
Principalmente para as crianças, que precisam de uma referência para servir de exemplo a ser seguido, e assim moldar os próprios caráteres. Como as crianças negras pouco se vêem em papéis de alto status na mídia, essa tarefa de ver a conquista representada em pessoas com os seus fenotípicos se torna mais complicada.
Pensando nisso, um projeto que surgiu na faculdade de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia (Ufba) quer incentivar a propagação da beleza negra, com seus penteados de tranças e torções. O TERERÊS foi criado por Taygoara Aguiar e ainda está em fase de captação de recursos.
Portal EcoDesenvolvimento.org: Por que você resolveu levantar a discussão do racismo?
Taygoara Aguiar: Decidi fazer livros infantis que tivessem personagens negros no meu trabalho de conclusão do curso de design da UFBA, porque eu não encontrava livros desse tipo para dar de presente para a sobrinha da minha namorada. Durante a pesquisa, fui descobrindo que esse problema se repetia na mídia e no livro didático e que era muito mais grave do que eu imaginava.
Qual a dimensão que você dá ao racismo no Brasil?
Acredito que o racismo no Brasil é um entrave para o desenvolvimento do país. O racismo coloca uma enorme parcela da população à margem das políticas públicas e da distribuição de renda. Acaba com a história e a identidade de um grupo étnico e, consequentemente, com sua autoestima. Acredito que o racismo é um fator a ser analisado, por exemplo, quando se pensa nos níveis de evasão escolar e violência da cidade.
Muita gente afirma que não há racismo no Brasil... Como você explica isso?
O modelo de relações raciais brasileiro é pautado no mito da democracia racial, que fala que não existem conflitos com base na raça ou cor de pele no Brasil. Deste modo, os conflitos raciais são tratados como questões sociais, como distribuição de renda ou escolaridade.
Por exemplo, fala-se muito que o preconceito é contra o pobre e não contra os negros. Mas quem é a maioria dos pobres no Brasil? Será que um negro vai deixar de ser "suspeito" em lojas de departamento só porque ele é rico? O mito da democracia fala que não há racismo no Brasil porque todo mundo é mestiço. Mas aqui o povo discrimina com base no grau de melanina. Quanto mais preto, mais discriminado.
Esse modelo com base na democracia racial é o motivo das pessoas acreditarem que não há racismo. Há racismo sim, só que ele é tão complexo e as pessoas têm tanta vergonha de assumir, que a sociedade prefere acreditar no mito e fingir que não tem.

Aygoara Aguiar, autor do projeto/Foto: Acervo pessoal
Como esse racismo disfarçado influencia na autoestima das crianças?
Stan "Took" Williams diz que "quando um indivíduo é bombardeado diariamente com estereótipos negativos, ele é levado a acreditar e comprar para sí estes estereótipos. Odiando nele essas características (cor da pele, cabelo, etc) e, por vezes, atacando os seus iguais, que possuem as mesmas características negativas que ele próprio julga ter". Esse é um exemplo de como o racismo influencia a autoestima e leva a negação do assemelhado etnico.
Você se considera uma pessoa com autoestima alta? Sofreu com algum problema de rejeição de beleza?
Estou em dia com a minha autoestima, apesar de não me enquadrar nos padrões de beleza hegemônico, minha namorada me acha lindo (risos).
O que é o projeto TERERÊS?
Fruto da parceria entre a Cardim Projetos e Soluções Integradas e do Laboratórios de Protótipos e Modelagem Digital da Escola de Belas Artes da UFBA, o projeto TERERÊS é uma proposta de série para TV com 12 vídeos didáticos de curta duração (aproximadamente um minuto e meio cada) feitos para serem veiculados nos intervalos da programação da TV pública local, com o objetivo de ensinar a crianças, através de histórias lúdicas e animadas, alguns penteados de matriz africana e seus significados.
O projeto tem como objeto de estudo a inserção cultural de novos materiais educativos que afirmem, incentivem e contribuam com a divulgação de um referencial estético afrobrasileiro. Há ainda a proposta de desenvolvimento de um site (divulgação, troca de experiências, conteúdo pedagógico) para crianças, jovens e educadores, além da distribuição gratuita de mil kits Tererês (DVD, Manual e kit para penteados), seguida por debates em escolas públicas e ONGs, através de parcerias com secretarias de Educação.
Qual a sua expectativa com o projeto?
Eu criei alguns objetivos para o projeto:
Qual a importância de criar projetos como esses, que expõem a beleza das crianças negras?
A valorização da estética e da corporeidade de matriz africana (a beleza da criança negra está inclusa nessa estética) contribui com o aumento da autoestima do afrodescendente e ajuda no combate às atitudes discriminatórias em nossa sociedade. TERERÊS é um projeto que visa promover a identidade e cultura afro-brasileira entre crianças e adolescentes, que, nessa fase, estão buscando referências para compor sua própria identidade e determinar seus valores.
O projeto se torna relevante quando se nota que a carência de material, que aponte alternativas aos padrões estéticos da cultura hegemônica, resulta na rejeição acrítica da estética negra. Além disso, a proposta pode colaborar com a aplicação da Lei 10.639/2003, que institui o ensino da cultura negra brasileira e do papel do negro na formação da sociedade nacional a crianças e adolescentes.
A que pé está os TERERÊS? Você percebe alguma resposta por parte das crianças?
O projeto foi desenvolvido na disciplina que leciono na escola de Belas Artes da UFBA. O projeto de captação de recursos e o vídeo piloto despertou interesse da TVE (filial da TV Cultura na Bahia) e de alguns potenciais patrocinadores, mas sem nenhum apoio oficial ainda. O TERERÊS está em fase de captação de recursos, aguardando ser aprovado na Lei Ruanet e concorrendo ao edital da Telefônica.
Mas o vídeo piloto gera interesse em todos que assistem, inclusive as crianças.
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