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Em 2007, Montero esteve em Pisco (Peru), para auxiliar na reconstução pós-terremoto que atingiu a região/Foto: Divulgação
Ricardo Montero é chileno de Santiago. Há nove anos ele está ligado à organização não-governamental Um Teto para Meu País e ajuda a construir casas de emergência para pessoas que vivem em condições extremas de pobreza e zonas de risco. Em ações da ONG ele já passou por outros países latinos como Peru e México, mas agora ele assume o cargo de Diretor Social no Brasil.
Após tanto tempo desenvolvendo trabalhos relacionados a uma das primeiras necessidades do ser humano, a moradia, Montero tomou os ideais da organização para si e defende o direito a um território para todos os latinos. Conheça mais sobre a história e o trabalho desse jovem que lida diretamente com a pobreza, nesta entrevista inspiradora.
Portal EcoDesenvolvimento - Como você começou a participar da Um Teto para Meu País?
Ricardo Montero - Comecei quando ainda estava no colégio. Como a ONG realiza construções com quatro tipos de público: universitários, empresas, famílias (quando alguma familia que tem recursos suficientes para bancar uma casa para a comunidade vem nos procurar) e colégios; eu conheci quando participei de uma ação que ela realizou com a minha escola, quando eu tinha 17 anos.
E como foi essa experiência?
Foi uma experiência que marcou a minha vida. Veja, isso aconteceu há nove anos e eu ainda trabalho na ONG. Eu pude conhecer uma realidade que muita gente tenta não enxergar. Me parece que a sociedade tenta evitar enfrentar esse tipo de situação, não reconhece o problema. Mas para mim foi muito interessante conhecer uma realidade do meu país que antes eu não conhecia.
O que te fez ter vontade de seguir com essa carreira profissinal?
Acho que o principal foi eu ter um resultado concreto, que é conhecer uma realidade e, passo a passo, tentar melhorar isso. É acreditar que existe algo na América Latina que é muito injusto, que não tem porque ser desse jeito, mas que dá para fazer algo.
Eu tenho amigos dispostos a trabalhar e conheço empresas que estão dispostas a fazer algo. É por isso que acredito nesse projeto que muda uma realiade muito extrema, como é a pobreza na América Latina, por uma melhoria na qualidade de vida de milhares de famílias.

No Chile, um dos trabalhos realizados por Montero foi capacitação técnica de voluntários universitários/Foto: Divulgação
Você é o primeiro representante da ONG aqui no Brasil? Como a Um Teto veio para o país?
Não, a ONG já teve duas diretoras brasileiras e outros dois emplementadores, um chileno e uma norte-americana. A gente geralmente trabalha com pessoas de outros países que levam os nosso projetos aos 25 países da América Latina e já possuimos sede em 19 deles, inclusive no Brasil.
Quantas ações já foram realizadas aqui no Brasil?
Nós trabalhamos no Brasil há quatro anos. Nós já construímos mais de 420 moradias de emergência e o planejamento é chegar na casa de mil.
A última ação da ONG foi um reconhecimento de famílias da Vila Primavera, na Zona Leste de São Paulo, no final de semana passado. Como foi essa ação?
Foi bem tranquila. Nós fizemos levantamento de informações da realidade da comunidade. Visitamos e vimos quais são as moradias mais vulneráveis e quais casam com o nosso perfil de trabalho. Para isso, nós fizemos uma apresentação do projeto para a comunidade e depois uma detecção com um questionário para cada uma das famílias que mais precisam de ajuda. Assim podemos planejar o nosso trabalho futuro, quais construções que vamos erguer.

Em outubro de 2010, comemora-se o Dia Mundial do Combate a Pobreza. Na ocasião, Um Teto para meu País organizou a Noite sem Teto em frente ao Monumento às Bandeiras/Foto: Divulgação
Quais são os critérios de decisão sobre quais famílias serão atendidas?
Nós temos uma enquete que se baseia em quatro critérios. No primeiro fazemos uma caracterização geral da família com informações básicas, como endereço, nomes e RGs; o segundo é o critério de vulnerabilidade, se a pessoa tem renda, trabalho fixo, carteira assinada, se sofre de alguma doença e precisa de medicamentos ou recebe alguma bolsa, se tem criança pequena ou mulheres grávidas... O terceiro fator mostra como está o estado da moradia, com informações sobre o chão, o teto, as paredes; e o último é de comentários gerais, como a história da família, há quanto tempo moram na comunidade e algumas avaliações que os entrevistadores fazem.
Toda essa entrevista está pontuada e soma um número final que nos permite calcular a situação dessa família e posteriormente conhecer quais as famílias que mais precisam de uma casa de emergência na comunidade.
Vocês já tem previsão de quando serão feitas essas construções?
No último fim de semana de março faremos uma construção com uma empresa, serão aproximadamente oito casas de emergência, e na Semana Santa a gente vai construir 50 moradias com jovens universitários de São Paulo.
Essas famílias serão deslocadas para outro local?
Não. Veja bem, a gente tenta resolver a situação das favelas hoje. Nós buscamos as pessoas mais vulneráveis da comunidade e transformamos suas moradias em uma casa de emergência. Porque há milhares de famílias brasileiras, hoje, que moram em situações irregulares e também há aquelas que moram em situação extrema, perto de córregos e zonas de risco. Então, a gente acredita que essa solução de agora é uma situação emergencial, mas tem que ser feita.
Todo sabemos que essas famílias precisam de uma solução definitiva, mas não aceitamos que elas continuem a morar do jeito que vivem. Então nós não buscamos outros terrenos, nós só construimos em lugares que as famílias já estão instaladas, e apenas para essa família.

Voluntários aplicam um questionário socioeconômico a famílias que vivem em condições precárias, como barracos feitos de restos de papelão e lonas/Foto: Divulgação
No blog da organização, você escreveu um artigo em que defende que a melhor saída para as famílias atingidas pelas chuvas que vêm acontecendo no Brasil não é a remoção delas do local atingido, já que, dessa forma, elas estariam levando o mesmo problema (a falta de moradia de qualidade) para outro lugar. Quais ações você sugere?
Primeiro, acho que deveríamos falar da verdade: hoje, as remoções não adiantam. Porque a família que mora em zona de perigo, perto de córregos, ou qualquer outra situação de emergência, não está morando lá por opção. Está morando justamente porque não tem outra opção, uma possibilidade de morar em outro lugar. Nenhuma família vai colocar em risco a vida de seus filhos se existe outra escolha.
A remoção de uma família de zona de perigo sem ter um plano integrado, sem ter uma solução concreta, não adianta. Ainda mais se essa família for morar em outro lugar que tenha condições ainda piores daquele que ela já mora.
Nós precisamos de uma solução integrada que vá além das remoções ou entrega de bolsas de governo. É preciso de moradias definitivas e, depois, um processo de capacitação dessa família que permita o seu desenvolvimento. Não adianta ter uma família com moradia definitiva, se não se oferece educação, saúde e condições de trabalho. Porque vai provocar que essa família busque outro lugar onde morar, para que tenha condições de sobreviver. A situação de pobreza dessas famílias é provocada por multifatores.

Voluntários transitam por vielas da comunidade de Vila Primavera, Zona Leste de São Paulo, em fevereiro de 2011/Foto: Divulgação
A Um Teto desenvolve trabalho em mais 18 países, como está o trabalho da ONG em locais como o Chile, por exemplo?
As ações da ONG são realizadas em três partes: a primeira parte é a construção de moradias de emergência, que é a parte que estamos trabalhando no Brasil; a segunda é simultânea à primeira, que é a implementação de planos de habilitação social, são assessorias em saúde, educação, oficinas de capacitação para os jovens. Essa segunda etapa nós já trabalhamos em outros países.
E tem uma terceira etapa de solução definitiva para uma comunidade sustentável. O que a gente busca é que essa comunidade não precise de auxílio ou de bolsas para ter desenvolvimento. A gente já trabalha no Chile na construção de moradias definitivas, já construímos mais de dez mil moradias definitivas e planejamos construir mais seis mil.
Em outros países também adiantados estamos buscando soluções, como regulamentação fundiária, autoconstrução e melhoria de moradias - essa é uma etapa final que a gente quer chegar. Queremos que a família não precise de uma ONG para ter o seu próprio desenvolvimento.
No início de março a Um Teto para meu País - Brasil lançou um vídeo institucional para divulgar as ações realizadas e conseguir mais ajuda e mão de obra para erguer casas de emergência para famílias em risco.
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