| Você concorda com a construção de hidrelétricas na Amazônia? | |

Dona Teresinha carrega os materiais com a ajuda de um carrinho de mão/Foto: Acervo pessoal
Pesquisas mostram que mulheres sempre foram maioria nos movimentos sociais para melhorar as condições de sobrevivência da comunidade. São elas que, na maioria das vezes, ficam com a guarda dos filhos e se preocupam com a criação. Elas querem um mundo melhor para eles, com melhor educação, saúde, condições de moradia e trabalho. E é por isso, principalmente, que se envolvem em projetos sociais.
No Dia das Mães, o portal EcoDesenvolvimento.org mostra a história de uma "mãe comunitária". Dona Teresinha tem cinco filhos (o mais velho já está criado e mora em São Paulo, enquanto o mais novo tem sete anos) e é pensando neles e nas outras crianças de Iporanga, cidade a 360 km da capital São Paulo, que recolhe resíduos recicláveis de mais de 70 localidades - puxando tudo em um carrinho de mão.
A cidade onde dona Teresinha mora não possui coleta seletiva, mas essa senhora de 52 anos não teve dúvidas quando resolveu coletar os materiais recicláveis da vizinhança e entregar a uma empresa de reciclagem. Já faz mais de seis meses que ela coleta, separa, limpa e guarda toneladas de resíduos em sua própria casa e ainda há muita vontade de continuar.
EcoDesenvolvimento.org - Quando você começou a catar os materiais recicláveis de sua cidade?
Dona Teresinha - Eu já separava os materiais da minha residência há mais de 15 anos, mas a minha cidade não possuía coleta seletiva. Eu comecei a recolher materiais recicláveis há seis meses, quando fui dispensada do hospital onde eu trabalhava como técnica de enfermagem e quis fazer alguma coisa para dar destino a todo esse lixo. Por exemplo, baterias e lâmpadas, o pessoal jogava misturado com outros resíduos no lixo comum, então eu descobri que a Eletro (a companhia que fornece energia para Iporanga) recolhe esses materiais e já separo para entregar no posto de coleta.

Quando chega perto da data de entrega, a casa parece um depósito/Foto: Acervo pessoal
Como você fez para conseguir reciclar os resíduos recolhidos?
Eu entrei em contato com uma empresa que faz esse serviço na cidade vizinha, em Apiaí, e consegui com que um caminhão venha buscar o material em dois em dois meses. Esse tempo de espera é para eu juntar mais de uma tonelada, que é a quantidade precisa para que a empresa busque o que eu juntei. Eu recolho material em cerca de 70 residências e empresas, como mercados e farmácias, do meu bairro. Mas no bairro da Serra, por exemplo, eu não tenho como buscar porque é muito distante.
Agora imagine, se eu já juntei sete toneladas e meia em apenas 70 casas, quanto não deve ser de lixo nessa cidade que tem cerca de 5 mil habitantes? Eu não tenho como pegar todos os resíduos dessas pessoas.
Que tipo de material você coleta?
Eu coleto de tudo, desde garrafa PET a pedaço de ferro. Coleto canos, lixo eletrônico, caixa de leite, papel de chiclete, papelão, plástico - tudo o que dá para reciclar levo para a minha casa e faço a separação. Quando fica próximo da chegada do caminhão, aqui em casa fica cheio de material, cada área com o que lhe é de direito. Tem cantinho de lata, cantinho de garrafa PET e de outras coisas que me entregam no dia a dia.
Quanto dá para tirar com essa coleta a cada dois meses?
Como eu não tenho meio de transporte, eu consigo coletar em dois meses, duas toneladas e meia de material. A depender do material coletado o valor da entrega pode chegar até R$600. Resíduos como motor de geladeira, que possuem cobre, têm muito mais valor do que o vidro, por exemplo.
A senhora acha que vale a pena tanto esforço?
Pelo valor, não, mas pela natureza, sim. A gente está tirando o lixo que iria parar na natureza... Se a gente pensar no valor arrecadado com cada objeto a gente desanima, mas se a gente pensar no meio ambiente, vale a pena se esforçar sim.

Dona Teresinha recolhe todos os tipos de materiais recicláveis/ Foto: Acervo pessoal
A senhora pretende trabalhar com isso por muito tempo?
A minha vontade é montar uma coleta seletiva aqui no município. Esse é o meu sonho. Eu acredito que Deus vai me ajudar a conseguir fazer com que todos os resíduos de todos os bairros do município sejam reciclados e que seja mandado o mínimo possível de lixo para o aterro.
A prefeitura de Iporanga possui algum projeto de implantar a coleta seletiva na cidade?
Tem um projeto na prefeitura que já faz uns 20 anos, mas até agora não saiu do papel. Há um tempo, eu tomei a iniciativa de mostrar à prefeitura o quanto é grande o consumo do nosso município e a minha ideia de montar uma coleta seletiva, mas não recebi nenhuma resposta. A responsável por questões ambientais me disse que é necessária muita burocracia.
Então eu desisti de buscar apoio da prefeitura e resolvi coletar o resíduo do meu próprio bairro... eu senti uma alegria tão grande de quando eu pude levar as duas primeiras toneladas de resíduo. Foi como se tivesse tirado um peso das costas.
Como você faz para coletar todo esse material?
Eu carrego tudo num carrinho e deposito no meu próprio terreno, onde eu montei um barracão improvisado com telhado para colocar os materiais. Como é muito objeto, eu vou acomodando e secando todos eles aos poucos, eu tenho que ter o cuidado de que nada acumule água ou larvas, por isso tampo todas as garrafas e cubro tudo com um plástico.
Graças a Deus ninguém nunca reclamou de foco de dengue nem nada. Em um outro bairro, os vizinhos estavam reclamando da quantidade de mosca, que estava absurda. Mas graças a Deus isso não acontece aqui em casa, eu disse a eles que deve ser a quantidade de sapo que tem por aqui [risadas...].

Para dona Teresinha, quando chega a data de entrega "é um alívio"/ Foto: Acervo pessoal
Você acha que a sua comunidade está mais preocupada com o destino do próprio lixo?
Estão sim. Sempre que eu passo pelas ruas recolhendo encontro mais uma pessoa que quer participar e separar o material. No bairro da Serra, que é um bairro turístico daqui de Iporanga, tem uma pousada que, quando é feriado e acumula muito lixo, manda uma caminhonete aqui para me entregar o material reciclável.
A gente percebe que eles não têm preguiça de separar o material, que entendem que é por uma boa causa e me ajudam nisso.
De onde você tira essa força para continuar a recolher tanto material, mesmo sozinha?
De Deus e da natureza [pausa...].
Eu acho que o trabalho que eu estou fazendo é bom para a minha cidade, já que vai dar um destino a tanto material que demora de se decompor e suja a nossa região. Esse lixo pode contaminar as nossas águas. Acho que Deus me dá forças para continuar fazendo o meu trabalho. Porque o que eu quero mesmo é deixar essa raíz pros meus filhos e pras outras crianças que estão vendo o meu esforço e admiram. Quanto mais força eu tiver, mais eu quero trabalhar para implantar a coleta em todos os bairros. Se Deus quiser.
|
|
|
|
|
|
|
||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
O Portal EcoD é um projeto do Instituto EcoDesenvolvimento
Direitos Autorais - Condições de uso do conteúdo
SEJA PARCEIRO DO ECOD