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Steffania (esquerda) e Elisa (direita) decidiram testar coisas que nunca tinham feito na vida durante um ano inteiro / Foto: Larissa Pinho Alves Ribeiro
Chamar um desconhecido para sentar em uma mesa de bar e jogar conversa fora, tomar banho de mar sem roupas, fazer propaganda de uma barraquinha de sorvete em troca de uma casquinha, tomar banho com a mangueira emprestada do lavador de carros, deixa um bombom na porta de todos os apartamentos do prédio, sair na rua elogiando todo mundo que passar, oferecer ajuda a um gari, pedir o ator Cássio Reis em casamento.
O que tudo isso tem em comum? Foram algumas das coisas feitas pela publicitária Steffania Paola e pela fotógrafa Elisa Mendes durante o desafio que se auto-propuseram no final de 2010: passar um ano fazendo coisas que nunca tinham feito antes na vida e mostrar que abrir a mente e o coração para novas experiências é a melhor maneira de levar uma vida mais leve e feliz.
Desde o dia 1º de janeiro de 2011 as duas publicam seus “nuncas” no blog 365 nuncas novos sempre. Nessa conversa com o Portal EcoDesenvolvimento.org elas contaram um pouco sobre o projeto e como ele está mudando as suas vidas e das pessoas ao seu redor.
Portal EcoDesenvolvimento.org: Como surgiu a ideia do blog?
Steffania Paola: Eu já estava pensando em uma forma de fazer meu 2011 mais estimulante. Queria pensar em coisas novas, fazer coisas novas, pensar o igual diferente, por aí. Então fiz essa pergunta pra Elisa um dia: ‘Você acha que dá pra fazer uma coisa que nunca se fez, todos os dias?’
Elisa Mendes: Eu na hora pensei, ‘uai, qualquer coisa a pessoa come uma comida que nunca comeu antes’, aí respondi meio que na lata, ‘sim, dá’. A gente registrou o blog e dia 1º de janeiro começamos. Hoje em dia eu continuo achando que dá, mas é bem mais difícil do que eu imaginava.
Por que fazer coisas que nunca foram feitas antes?
Steffania: É um jeito de fazer a vida ficar mais estimulante, de me forçar a pensar em outro jeito, ou em um jeito novo pra todas as coisas. É também uma forma de fugir da institucionalização da vida mesmo. No meu caso, pelo menos, que tenho uma vida bem corporativa, é muito desafiador fazer um exercício de todo dia sair da caixinha pra pensar nessas outras coisas.
Elisa: Gosto do desafio. Gosto de quebrar a rotina. Gosto de pensar em nunca ter experimentado. Gosto de experimentar. Nunca parece bem perto do impossível. Gosto dessa sensação. Gosto dum monte de coisas desses nuncas. Até do frio na barriga que dá quando vai chegando perto de meia-noite e eu ainda não tive uma ideia.
Como tem sido o desafio?
Steffania: Às vezes é a coisa mais gostosa do mundo, às vezes é a coisa mais difícil do mundo.
Elisa: Um sufoco e uma maravilha. Tem um lance no zen-budismo que fala assim: o tamanho da luz é o tamanho da sombra. Penso nisso todos os dias da minha vida. Os nuncas me iluminam muito, mas me exigem muito também. Mas é melhor, no final. Acho que se não eu largava, já larguei tanta coisa. Acho que o maior nunca vai ser chegar no dia 31 de dezembro e ter cumprido com uma promessa fielmente, sem falhas. E sempre penso em ler isso daqui uns anos.
De onde vem a inspiração para imaginar uma coisa nova diariamente?
Steffania: Na verdade acho que eu fui desenvolvendo uma técnica, porque não é fácil pensar em uma coisa que a gente nunca fez, e pensar nisso todo dia. Aí o truque é observar mais as coisas do dia, todas as coisas, das mais simples e cotidianas às mais complexas. É daí que surgem as idéias.
Elisa: Do dia a dia, das pessoas, das ruas, eu observo muito. De filmes, livros e sugestões de amigos.
Como todas as novidades, devem ter acontecido coisas boas e outras não tão boas assim. Quais foram as que mais te marcaram até agora?
Steffania: Uma coisa ruim que aconteceu foi que tivemos que tirar do ar um vídeo, porque ameaçaram processar a gente. Tiramos, mesmo não compreendendo exatamente os motivos. Agora foi só isso, no meio de um montão de coisas legais.
Elisa: As boas é o retorno das pessoas. Fico impressionada.
Como tem sido a reação das pessoas?
Elisa: Bem mais pra “bão” do que pra ruim.
Steffania: Estava até falando sobre isso com Elisa outro dia, de como as pessoas recebem bem, que se formos voltar a fita dos "365 nuncas" até agora foi bem positivo. As pessoas têm gostado.

Pegar carona no caminhão de lixo, visitar o zoológico e brincar com um megafone - coisas que sempre tiveram vontade de fazer, mas nunca tinha feito / Foto: Blog 365 nuncas
Nos vídeos é possível perceber que muita gente se espanta com uma atitude espontânea de bom humor ou gentileza. Por que vocês acham que isso acontece?
Steffania: Porque existe uma apologia às coisas ruins. Não estou dizendo que elas não existam, mas são bem enfatizadas em tudo quanto é lado. Aí uma atitude positiva, quando acontece, é uma surpresa pra muita gente.
Elisa: Eu acho que a gente vive numa sociedade que cobra tanto de cada um, que a gente tá sempre focado em correr, ser melhor, ganhar mais e um monte de coisas que fecham a gente dentro da gente. Quando alguém passa nos provocando a sair de dentro desse ciclo de pensamentos individualistas, a pessoa se surpreende. Como a intenção é boa, acho que a reação, na maioria das vezes, é boa também.
Na descrição do blog, vocês defendem que a vida deve ser vivida com mais arte, carinho, atenção, diversão, intenção, experiência e amor. De que forma a iniciativa de vocês pode ajudar a espalhar essa mensagem?
Steffania: Como elas tem feito, fazendo os seus próprios nuncas.
Elisa: Eu acho que é mais pelo exemplo mesmo. Todos os dias eu me desafio a conseguir ser uma pessoa mais interessante, mais divertida, mais atenta ao próximo e mais atenta a mim mesma, às minhas vontades. Eu leio, vejo filme, navego na internet buscando inspiração para o blog e compartilho o que consegui de melhor. Acho que foi o jeito que conseguimos de passar a mensagem.
Quais os seus sonhos?
Steffania: Agora eu queria ter mais tempo livre. O sonho do presente é esse.
Elisa: Hmmmm... tantos. Ando com sonhos meio impossíveis por agora. Mas ando gostando de cultivá-los.
O que inspira vocês?
Steffania: As pessoas, as referências das outras pessoas, os livros, os filmes, os artistas, a vida vivida igualzinho ela é vivida todo dia. Eu adoro esse encontro, quando a gente descobre que mais ou menos toda a humanidade vive algumas coisas do mesmo jeito que a gente. Aí eu sempre penso: ‘tá, agora já posso pensar em como pensar sobre isso de outra forma’.
Elisa: Pessoas. Mas aí vão alguns pensadores: Salvador Dali, Jesus, Italo Calvino, Pirandello, Guimarães Rosa, Sophie Calle, Woddy Allen, Monet, poxa uma pá de gente. Mas esses aí sempre chegam rapidinho no meu pensamento.
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