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Entrevista Gabriel Milanez
Postado em Juventude em 22/06/2011 às 19h30
por Redação EcoD
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Gabriel Milanez é sociólogo e foi um dos responsáveis pela pesquisa O Sonho Brasileiro, feito pela empresa Box 1824. Leia a entrevista que ele cedeu com exclusividade ao Portal EcoDesenvolvimento.org:

Portal EcoDesenvolvimento.org.br: Quais foram os principais fatores históricos e sociais que resultaram nesse perfil do jovem?

Gabriel Milanez: Temos dois caminhos para enxergar de onde veio esse jovem que a gente está traçando hoje. Um é um percurso que mostramos na pesquisa através de um estudo semiótico que a gente faz uma análise ao longo das gerações para mostrar como o modelo de transformação social e as representações que se fazem do jovem brasileiro foram mudando e também a gente pode fazer uma leitura a partir dos três drivers que analisam exatamente isso. Então novas configurações do mundo, que é o não-dualismo, a hiperconexão e as micro-revoluções, impactam a forma como esse jovem entende o papel dele no país e no mundo.

Os jovens estão esperançosos, otimistas, focados na realização individual. O sonho de 55% está ligado à formação profissional e emprego, e 77% têm intenção de cursar ensino superior. Exista alguma diferença com relação aos sonhos das gerações anteriores? Os jovens de hoje abriram mão de outros fatores, como família, para focar no profissional?

Eu acho que uma coisa não exclui a outra. O fato deles olharem e sonharem com formação e trabalho não significa que eles não estejam olhando para outros campos da vida social deles. O que a gente ressaltam sempre é que a noção de trabalho que ele está trazendo aparece diferente das gerações anteriores, inclusive no que os pais deles tiveram. Por isso também que a gente foca na especificação do tipo de trabalho que esse jovem está sonhando. E isso tem uma relação direta com o contexto do país. A gente pode pensar que esses jovens de hoje se permitem ter uma noção de trabalho que não quer só acumulo financeiro. Ele não quer um trabalho só como meio de sobrevivência, eu vou trabalhar das 9h às 18h e depois eu vou ser feliz. Não significa que o retorno financeiro, estabilidade e carreira não sejam importantes, são importantes também, mas ele quer integrar a isso satisfação pessoal. E quando a gente começa a caminhar mais para esse perfil de jovens-ponte, a gente vê também ele buscando a relevância social do trabalho. Isso acontece porque esse jovem vive em um mundo muito mais múltiplo e cheio de possibilidades que os pais dele viveram. Então hoje você tem inúmeras possibilidades de experimentação, de novos formatos de trabalho, não é só numa empresa que você pode trabalhar, então os jovens estão criando projetos, novas formas e vínculos de trabalho. Além disso, o país também está num momento diferente. Os pais que vieram dos anos 1980, por exemplo, viviam em uma instabilidade política e economiza muito forte, então era natural que eles se preocupassem mais “em sobreviver”, ganhar dinheiro, ter uma estabilidade, cuidar da família. Esse jovem de hoje não viveu ditadura, inflação, ele já nasce em um cenário muito mais estável e positivo. Então ele se permite experimentar mais e pensar em outras coisas que o contexto em que os pais viviam não permitiu, seja pelo país ou seja pelas possibilidades do mundo.

87% dos jovens brasileiros acham que o Brasil é importante no mundo hoje. 89% dos jovens tem orgulho de ser brasileiro. 76% dos jovens brasileiros acreditam que o Brasil está mudando para melhor. 31% sonha com Respeito e cidadania para o país e 28% sonha com Oportunidade para todos. Ao mesmo tempo, se colocam como agentes da transformação e 90% afirma que gostaria de ter uma profissão que ajudasse a sociedade. Qual tende a ser o resultado dessa junção?

Essa na verdade foi a motivação inicial do trabalho. Olhar para esse país no melhor momento da sua história com essa geração que tem possibilidades e instrumentos que nunca houve, uma geração globalizada e conectada. O que a gente entende é que esse jovem percebe que existem muito mais oportunidades hoje e que esse potencial é gigante. Aí está a importância das pontes, porque conectar esses jovens com possibilidades de realização com oportunidades é uma coisa de que tem um grande potencial. Isso pode ser feito por todo mundo. A nossa intenção com essa pesquisa é que ela seja lida pelo maior número de pessoas e de atores. Todo mundo pode ler essa pesquisa e de alguma forma pensar em como pode propiciar que essas pontes sejam construídas e que esses jovens encontrem oportunidades de realização.

A pesquisa também revela uma geração que é, ao mesmo tempo, sonhadora e pragmática, consumista e vivenciável. Seriam objetivos opostos? Como o senhor ver isso?

Não diria que são opostos. Como eles são de uma geração mais aberta e múltipla, coexistem muitas coisas. A gente fala que é a geração do “e” e não do “ou”. Você ser uma coisa não exclui de ser outra. O consumismo é uma característica do mundo. Diferente dos jovens dos anos 1980, que era aquela representação do individualismo, da carreira, que tinhas os sonhos focados em consumo, os jovens de hoje também consomem, talvez até mais, a diferença é que ele não coloca isso como sonho dele. A relação entre sonhador e batalhador, entre sonhador e responsável é muito interessante, porque é um sonho que vem com pragmatismo, com estar conectado com a ação cotidiana. Não é um sonho utópico, etéreo, distante, inalcançável. Então não são características excludentes, elas compõem um novo tipo de sonho.

O que diferencia um jovem-ponte dos demais?

Jovens transformadores sempre existiram em todas as gerações, a diferença está nos tipos de transformações que eles fazem, que estão condizentes com aquele tempo em que eles estão vivendo. Então os jovens-pontes são aqueles jovens transformadores do tempo atual. A transformação que eles trazem é diferente, por exemplo, de quando você olha o modelo dos anos 1960, quando as transformações eram comportamentais, ou dos anos 1970, que eram muito focadas nas revoluções políticas, armadas, nos movimentos estudantis. Todos os jovens eram assim? De forma alguma, mas tiveram alguns jovens que ficaram marcados com as características daquele tempo como um todo, que estavam à frente e que puxaram as transformações de toda uma geração. Hoje a gente está desenhando critérios desse jovem que vai ficar marcado como a imagem desse tempo. O que o jovem-ponte traz é que hoje a transformação não está necessariamente conectadas com a choque, conflito, revolução armada, nem necessariamente ao acúmulo financeiro, à dinheiro, à concentração de poder. A gente vê que a transformação que esses jovens estão trazendo está muito conectada com aquilo que a gente chamou de micro-revoluções, ou seja, ações diárias, que todo mundo pode fazer em suas vidas, inspiradas pelos heróis reais. Então a transformação do mundo de hoje esse jovem entende que vem da junção dessas micro-revoluções que estão acontecendo em todos os lugares. Uma coisa muito interessante também é que no modelo de pensamento desses jovens não é política que traz transformação, não são apenas as causas grandiosas, grandes mártires, mas todas as causas são igualmente importantes. Então você vê jovens preocupados não apenas com causas políticas, mas também com causa sociais, ambientais, culturais, educacionais, etc. Então esse jovem-ponte está atuando em diversas dessas causas, em várias redes diferentes. O que ele tem de diferente dos outros jovens é que muitas vezes ele transita por muito mais redes que os outros, então a gente encontrou jovens que têm diferentes tipos de atividades em diferentes ambientes, momentos e causas. Ele transita entre essas redes e acaba levando não só informação de um lado para o outro, mas também acaba re-elaborando muita coisa. Então ele pega algo de uma rede, mistura com aquilo as referencias dele, e devolve para as outras rede, fortalecendo essas causas e modelos de atuação. Ele trabalha muito pela colaboração, pelo diálogo, entendendo que a soma dessas pequenas coisas que cada um vai fazendo dentro dessas pequenas causas vão se somando e vão levar a transformações maiores na sociedade.

Por estarem conectados a mais redes, os jovens-transformadores atuais seriam mais influentes do que os de outras décadas?

É um poder de influencia diferente. O que a gente observava é que os jovens eram muito influentes dentro de um grupo, uma causa. Os jovens dos anos 1970, por exemplo, eram muito focados em política partidária e grupos muito fechados, ou era de direita ou de esquerda. Então seu poder de influencia estava muito dentro desses iguais, dessas pessoas que pensavam ou que se convertiam ao seu pensamento. Existia uma influência, mas dentro de um grupo muito mais homogêneo e de menos grupos. Hoje, em um mundo muito mais aberto e múltiplo, muito mais grupos existem, então esse jovem acaba exercendo influência em um número maior de jovens. Talvez ele não seja “o” grande líder de um grupo apenas, mas ele tem influência simultânea em vários deles.

Qual o poder de transformação desses jovens e qual a importância deles na construção do país?

A gente acredita que a forma de atuação deles será dentro dessas micro-revoluções. Esses jovens estão fazendo diversas coisas na vida cotidiana deles que, ao se somar à ação de todos, acaba criando transformações maiores. Dentro do trabalho a gente traz tanto novas formas de se pensar política, economia, família, religião, coisas que a gente entende como aquilo em que eles já estão influenciando a sua geração a repensar, como a própria forma de participação desse jovem em relação ao país, que é influencia sua geração a ter mais cidadania, honestidade, ética, a começar a fazer a sua parte a partir de baixo, não esperar. Sabe aquele mito do messias que um dia ia chegar no Brasil e salvar todo mundo? Esse jovem começar a pensar por uma lógica diferente, que é a das redes, da interconexão, de transformar a sociedade de baixo para cima.

Que tipo de sociedade esses jovens com novas formas de pensar, de agir e de se relacionar com o mundo vão criar?

Acho que essa valorização do coletivo é uma coisa muito importante. Essa noção da integração entre desenvolvimento econômico, social e ambiental, essa composição da sustentabilidade que muitas vezes o jovem não expressa dessa forma, com essas palavras, essa inter-relação, está cada vez mais forte e natural para esse jovem. Então eu acho que a gente vai ter um mundo um pouco mais aberto ao coletivo, mais responsável com as relações humanas e com o meio ambiente, sem excluir o desenvolvimento econômico. Essa geração já está pensando dentro desse novo modelo.

Então seria uma geração, pela sua própria essência, sustentável?

Bom, isso não é uma conclusão do estudo, mas minha opinião como sociólogo, e é que sim. Cada vez mais essa geração se abre para isso.



Tags: Juventude
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