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Mesmo enfrentando dificuldades, Paulo completou o curso superior e realiza projetos científicos/Foto: Acervo pessoal
A maioria das histórias contadas pelo portal EcoD no canal de Inspire-se são ações inspiradoras de pessoas que, em algum momento de suas vidas, percebem que o mundo não se basta sozinho e é preciso agir para tentar mudar determinada realidade. Mas, e quando a própria vida da pessoa é uma luta diária pela mudança? Nesse país de mais de 190 milhões de cidadãos dispostos em mais de 9 milhões de km², muitos brasileiros enfrentam dificuldades com educação, saúde e emprego – principalmente aqueles que vivem em áreas menos desenvolvidas.
Paulo Barni é um desses brasileiros que passou boa parte de sua vida encontrando dificuldades e aprendendo com elas. Aos 11 anos, sua família se mudou de Santa Catarina para região Norte, numa época que o governo militar oferecia terras na região amazônica. Em Rondônia, Barni parou com os estudos e só foi terminar o ensino médio quando já era casado. Nesse meio tempo ele trabalhou como ambulante vendendo tapetes em diversos estados do Norte e até realizou um parto prematuro, com canivete “cego” e desodorante, em meio à estrada, dentro de um ônibus.
Aos 36 anos, já separado e com duas filhas, Barni voltou a estudar e se formou em engenharia florestal na Universidade Federal da Amazônia (Ufam). Ele continuou vendendo tapetes até os dois primeiros anos do curso, foi para um congresso com dinheiro doado por um político e voltou de carona pelas estradas de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Rondônia e dos rios do Amazonas. Mas o esforço valeu à pena, pois foi ali que ele percebeu que queria ser cientista e estudaria para o resto da vida.

Paulo (um dos gêmeos) e sua família ainda em Santa Catarina/ Foto: Acervo pessoal
Saiba mais sobre a história inspiradora de Paulo Barni em suas próprias palavras.
Portal EcoDesenvolvimento.org – O que fez a sua família se mudar para a região Norte? A nova vida deu certo?
O que culminou na mudança de endereço foram alguns problemas conjugais entre meus pais, mas passados alguns anos, os mesmos problemas voltaram a aparecer e nos mudamos, em 1982, para Cuiabá. A vida em Rondônia também não era fácil, lá enfrentamos problemas como a falta de infraestrutura para o escoamento dos produtos da roça e com os baixos preços pagos na nossa produção, além da falta de escola para nós e a distância dos nossos parentes.
Nessa época a sua família começou a vender “tapetes do sul” e você viajava muito pelas estradas da região Norte, essa profissão te modificou de alguma forma?
O que eu posso dizer é que o contato com os clientes, as estratégias para atender as suas necessidades e, assim, possibilitar as vendas me tornaram um ser humano mais humilde e sabedor dos seus limites. Isto porque eu queria vender e, para isso, tinha que traçar estratégias até chegar onde eu queria. Então me concentrava no benefício que a minha mercadoria iria trazer para o cliente e a satisfação que este iria sentir ao usá-la em sua casa. Este aprendizado, na verdade foi fundamental para o que veio a seguir na faculdade. Fiz exatamente a mesma coisa com meus colegas e professores buscando sempre o melhor das pessoas e dar o melhor de mim nas tarefas e trabalhos realizados sozinho ou em grupos.
O que despertou essa vontade de voltar a estudar e aprender mais já aos 36 anos de idade?
Na verdade NUNCA se deixa de aprender. A aprendizagem é um processo contínuo. Mas, Eu queria apenas formalizar o que eu sabia e aprendera com as ricas experiências de vida vivida na Amazônia e que não era valorizado quando eu era um simples vendedor de tapetes.

Paulo se formou em engenharia florestal em 2006/Foto: Acervo pessoal
Como foi que você decidiu que seria cientista?
Então, eu gostei muito dessa vida de estudante. Durante os 16 anos de profissão de vendedor eu sentia que tinha que "matar dois leões" por dia para dar conta de manter a mim e a minha família (eu fui casado durante 10 anos). Mas para ser um bom estudante, você precisa de muito ócio criativo. Então tive que me distanciar de minhas filhas Ana Claudia e Amanda, e vendia tapetes nos finais de semana.
Quando eu participei de um congresso de engenharia florestal, eu percebi que estudar era o que eu queria fazer. Mas, hoje, no doutorado, vejo que pra ser bem sucedido nessa profissão também é preciso matar dois leões por dia, com o diferencial de deixar outro amarrado para o dia seguinte. Porque, além do trabalho árduo de pesquisar e fazer revisões constantes na busca da perfeição, é preciso ter muita disciplina.
A diferença, agora, é que faço por amor e prazer, não mais por apenas dinheiro e obrigação.
Em seu doutorado você estuda a ameaça de fogo à floresta amazônica. Qual a importância desse trabalho?
Entenda. Só controlar o desmatamento não será suficiente para conter a degradação da floresta Amazônica e as consequentes emissões de CO2 para a atmosfera provenientes desses processos. O fogo tem o poder de enfraquecer a floresta e a torna mais vulnerável a novos incêndios, criando um ciclo negativo de incêndios e degradação e emissões de CO2 através da mortalidade das árvores. A floresta que brota depois dos incêndios é cada vez menos biodiversa do que a original.

Paulo em uma consultoria em Lago Grande, no Pará/Foto: Acervo pessoal
Qual a aplicação de sua pesquisa na preservação da Amazônia?
As pesquisas, depois de publicadas, poderão ser utilizadas para embasamento de políticas públicas que visem à proteção das florestas contra incêndios florestais e para o desenvolvimento de metodologias que visem à melhora na resolução de modelos matemáticos e explícitos de desmatamento e de incêndios florestais. Ou seja, colaboram com a criação de modelos mais realísticos na simulação desses fenômenos, por exemplo, desmatamento e incêndios florestais.
Você acha que a sua história serve de exemplo para que outras pessoas consigam mudar a própria realidade em busca de uma vida melhor?
Acho que sim, porque muito do que cresci foi através da leitura. Quando eu trabalhava vendendo na rua, lia praticamente tudo que me caía nas mãos. Eu lia as revistas Veja e Época, por exemplo, além de outras em consultórios médicos e odontológicos para me manter informado, e também assistia os principais telejornais do país. Eu também lia literatura de auto-ajuda e romances de ficção científica e era frequentador não muito regular de cinema, mas gostava de ver filmes de ficção científica pela TV aberta.
Os filmes e a leitura de bons livros são excelentes para aguçar o nosso espírito crítico. Não acho que apenas estudar por estudar seja o suficiente. Temos que ser críticos e ousar fazer diferente se quisermos fazer dos estudos uma fonte de crescimento e mudança em nossas vidas. Por exemplo, tem algumas obras que considero divisoras em minha vida, como o livro "O Ponto de Mutação", de Fritjof Capra, e o filme "MATRIX". Elas me ajudaram a enxergar muito além do que eu julgava conhecer até então.
Mas acho que fora dos círculos da internet e das pessoas que têm acesso à informação, poucas pessoas da Amazônia tem e terão acesso a informações que as ajudarão a melhorar seu nível de educação.

Paulo em uma visita de campo na Amazônia/Foto: Acervo pessoal
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