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Angra 2, no RJ, entrou em operação em 2002 e contou com a tecnologia alemã/Foto: Rodrigo Soldon
Fundamental para muitos, desnecessária e perigosa para outros tantos, a energia nuclear no Brasil divide opiniões, inspira a formulação de grandes projetos e gera manifestações de grupos ambientalistas. Com a consolidação das usinas de Angra 1 e Angra 2, somada a recente e, por que não dizer, polêmica liberação de Angra 3, a discussão ganha ainda mais corpo. Alguma dúvida sobre o tema? Nós traçamos para você um panorama das fontes energéticas nucleares em nosso país.
Tudo começou em 1954, quando o urânio metálico passou a ser produzido no Brasil. Logo, o governo brasileiro aumentou o interesse em desenvolver um programa nuclear próprio, a fim de deixar de ser um simples fornecedor de minério para a onipotente indústria nuclear dos países europeus.
Em 1965, em plena ditadura, os militares que governavam o país fecharam um acordo com a empresa americana Westinghouse, com o intuito de obter seu primeiro reator, que foi instalado em 1971. Cinco anos depois, uma parceria com a Alemanha para obter mais dez reatores fracassou. Somente em 1986, o reator nuclear construído pela companhia dos Estados Unidos entrou em operação na usina de Angra 1, no Rio de Janeiro – estava solidificado o programa Almirante Álvaro Alberto.

A energia nuclear ganhou corpo com os governos militares no Brasil/Foto: Tonyç
Já a usina de Angra 2 esperou até o ano de 2002 para entrar em funcionamento, graças a importação de tecnologia alemã. Com esta nova implantação, o Estado do Rio de Janeiro deixou de importar energia elétrica e passou a exportá-la. Foram investidos R$ 17 bilhões na construção desta geradora nuclear. Ao todo, o empreendimento conta com 1.350 megawatts de potência instalada, quantidade equivalente a do potencial energético dos painéis solares instalados na Alemanha, em 2007.
Angra 3
Em 4 de março de 2009, Roberto Messias Franco, presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) assinou a licença de instalação da Usina Nuclear Angra 3, no Rio de Janeiro. A empresa Eletronuclear, responsável pela obra, terá que cumprir 44 exigências sócio-ambientais antes do início das operações, previsto para 2014.

Roberto Messias Franco: a empresa cumpriu boa parte das exigências/Foto: Valter Campanato/ABr
De acordo com o plano de expansão do Ministério de Minas e Energia (MME), a terceira usina brasileira contará com uma potência de 1.400 MW e a possibilidade de gerar mais de 10 milhões de megawatt-hora (MWh) por ano. Atualmente, o Brasil possui a sexta maior reserva de urânio do mundo, com 309 mil toneladas. O país ainda domina as sete etapas principais de enriquecimento e tratamento desta substância e só depende das companhias estrangeiras para duas delas: o beneficiamento e a conversão.
Protestos
Quem não gostou nada da liberação de Angra 3 por parte do Ibama foram os grupos ambientalistas, em especial o Greenpeace, que criticou a ausência de uma solução definitiva quanto ao destino do lixo nuclear gerado pelos reatores da nova usina. Segundo especialistas, o ideal é que um depósito permanente seja construído para armazenar os resíduos radioativos de Angra 3.
Na primeira semana de março, o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, reafirmou sua posição contrária a implantação de Angra 3, mesmo que a liberação tenha partido do Ibama, órgão vinculado ao Ministério do Meio Ambiente (MMA). "Segundo o Ibama e a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), a Eletronuclear cumpriu boa parte das exigências feitas até aqui para obter as licenças ambiental e de instalação. Para obter a licença de operação, no entanto, a empresa terá que ter as obras do depósito definitivo em andamento. Caso contrário, a usina não entrará em operação", adiantou Minc.
No dia 5 de março, ativistas do Greenpeace fizeram uma manifestação na sede principal do Ibama, no Rio de Janeiro. Em forma de protesto, os ambientalistas acorrentaram um imenso retrato de Roberto Messias, presidente do órgão, com a irônica inscrição: “O Messias chegou e traz más notícias”, numa alusão a Jesus Cristo. “O Greenpeace continuará exigindo na Justiça e nas ruas que o governo não embrome o povo brasileiro investindo bilhões de reais de dinheiro público em um projeto ultrapassado que ameaça a sociedade e o meio ambiente, e não traz segurança energética”, comunicou, em nota, Rebeca Lerer, coordenadora da campanha de Energia do Greenpeace.
Para o físico José Goldemberg, especialista em energia e vencedor do prêmio Planeta Azul (2008), considerado o Nobel do meio ambiente, construir novos reatores nada mais é do que “politicagem”, e dizer que as fontes energéticas nucleares tornarão o Brasil independente em energia é uma “falácia”.
“O Brasil ainda não precisa da energia nuclear. Temos outras opções. O aproveitamento hidrelétrico do Brasil ainda tem amplo espaço para avançar, e os problemas ambientais aos poucos vão sendo resolvidos. Hoje, é possível gerar energia com uma área inundada menor que os reservatórios de Itaipu ou Tucuruí. Outra opção é a energia eólica no Rio Grande do Norte, Piauí, Maranhão e Ceará. O potencial equivale a uma usina de Itaipu (que é responsável por 20% do consumo do país)”, afirmou à Revista Época, em junho de 2008.
O Ministério de Minas e Energia (MME) já incluiu em seu planejamento até 2030 outros 4 mil MW adicionais, com a construção de duas outras centrais nucleares e investimento de R$ 40 bilhões a R$ 50 bilhões. Segundo o MME, as 250 mil toneladas das duas maiores jazidas de urânio do país, Lagoa Real (BA) e Santa Quitéria (CE) podem abastecer as três unidades de Angra pelos próximos 100 anos. Tal quantidade corresponde ao dobro do valor energético de todas as reservas de gás natural da Bolívia.
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