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"Eu acredito que a gente pode se tornar a vanguarda anti-gueto do século 21"
Aproveitando a oportunidade de trabalhar em uma das maiores emissoras de TV do mundo, a atriz e apresentador Regina Casé e sua equipe sempre buscaram "ir a lugares aonde ninguém mais ia e conversar com pessoas que pareciam invisíveis".
Percebendo a enorme indústria de produção cultural que existia nas periferias, a equipe desenvolveu um projeto que buscava mapear esse fenômeno em todo o Brasil, e depois em todo o mundo.
Foi nesse projeto que Regina descobriu grandes movimentos “com potenciais incríveis", como o funk carioca, o forró eletrônico, o kuduro, o cupê de calê, entre muitas manifestações de guetos de todo o planeta.
Mas apesar da força e da riqueza cultural dessas manifestações, sua valor não é reconhecido pela sociedade. Essa questão é discutida durante os depoimentos exibidos no vídeo de apresentação do projeto. Segundo os entrevistados, a imagem dessas produções vindas de grupos excluídos está impregnada de preconceitos e tabus impostos pela própria sociedade.
"Praticamente de dois em dois anos a gente era convocado pela Secretaria de Segurança e Polícia. Nunca a gente foi na Secretaria de Cultura aqui no Rio", disse o antropólogo Hermano Vianna, que junto com o DJ Marlboro estuda e promove o funk no Brasil desde 1986.
Regina exibe como essa obra popular influencia diretamente os hábitos, a rotina e até a economia das comunidades, se tornando exemplos de produções legítimas - feitas pelo povo e para o povo.
"O que eu acho mais incrível é que isso não é uma latência, não é uma tendência tímida, uma coisinha que está acontecendo ali. É uma indústria cultural gigantesca que é totalmente estigmatizada, totalmente ignorada pela economia oficial, pela mídia oficial, ela é totalmente estigmatizada e negligenciada pelas instâncias que legitimam o que é cultura, o que é popular", diz.

Nos programas a apresentadora mostrava um lado da cultura popular que muita gente não conhecia
Tradição x qualidade
Para a apresentadora, as políticas culturais atuais ignoram essas manifestações, ou ainda atuam como se tivessem "um certo nojinho" desses fenômenos por considerar que eles não se encaixam na categoria de “cultura”, muito menos de “popular”.
"Não só a gente não está aproveitando economicamente e socialmente esse fenômeno desse tamanho e dessa magnitude, como a gente não está incentivando”, alerta. Para tornar a situação ainda mais grave, Regina aponta para outra vertente de pessoas que legitimam o que é cultura e que estimulam que essas pessoas abandonem esse tipo de produção por outro, considerado mais "digno" e de “mais qualidade”.
Ela conta ainda que muitas vezes o preconceito se mistura à ingenuidade das pessoas, que simplesmente não conhecem verdadeiramente aquela comunidade e a sua cultura. É nesse aspecto que a apresentadora deposita sua esperança no Brasil.
"Eu acredito que a gente pode se tornar a vanguarda anti-gueto do século 21. Eu acho que a gente tem soluções muito originais. É claro que existe racismo, o preconceito, a injustiça, viver em uma favela é terrível, mas uma coisa que foi se processando apesar de todos esses pesares gerou uma forma original de conviver com as diferenças. Onde as pessoas têm mais medo da gente, onde parece que a gente é pior, a gente pode ser o melhor", conclui.
TEDxSP 2009 - Regina Casé from TEDxSP on Vimeo.
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