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TED Jeremy Jackson: Como nós destruímos o oceano
Postado em Água em 12/05/2010 às 12h00
por Redação EcoD
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Para Jackson, a humanidade precisa se unir para modificar a realidade dos oceanos

Após 10 anos viajando o mundo e observando os recifes de coral mais bonitos do planeta, o pesquisador, paleontólogo e ecologista marinho Jeremy Jackson viu os recifes da baía do Descobrimento na Jamaica desaparecerem após um furacão.

Mas apesar do que Jackson e sua equipe de cientistas previram, não foi o furacão o responsável pela morte da vida marinha no local. “A razão foi a pesca indiscriminada, e porque a última criatura restante, um ouriço-do-mar, morreu. E dentro de poucos meses macroalga começou a crescer. Hoje os recifes de corais da costa norte da Jamaica têm uma pequena porcentagem de corais vivos e muitas macroalgas e musgo. E esta é mais ou menos a história dos recifes de corais do Caribe, e cada vez mais, de forma trágica, dos recifes de corais do mundo”, lamenta.

Segundo o professor, a situação dos ambientes marinhos que sofreram algum tipo de desastre natural, como o furacão da Jamaica, costumava ser amenizada com um tipo de cadeia de sequência de recuperação. “Mas o que acontece agora é que a pesca indiscriminada, a poluição e mudança climática estão interagindo para que isso não aconteça”, diz.

Esses três fatores são os principais vilões dos mares e oceanos do mundo hoje, afirma Jackson. O esgotamento de diversas espécies de peixes, como o bacalhau, é um alerta para a situação de um ecossistema prestes a entrar em colapso. “Tudo acabou nos anos 1980 e 1990, 35 mil pessoas perderam o emprego. E este foi o começo de um certo esgotamento em série de espécies”, afirma enquanto exibe imagens de peixes-troféus que chegavam a pesar 135kg no passado.

recife.jpgJackson conta ainda que não são só os peixes que estão desaparecendo graças a ação destruidora da indústria de pesca. Uma área equivalente a “todas as florestas que já foram cortadas em todo o planeta na história da humanidade” formada por floresta de esponjas e corais foi devastada pelo maquinário pesado, que inclui redes que medem mais de 30 km, linhas com até dois milhões de ganchos e redes de arrastão.

“Isso significa pegar algo do tamanho de um trailer e que pesa milhares e milhares de quilos, colocar numa corrente enorme, e arrastá-lo através do leito do oceano para revolver o chão e pegar os peixes. E pensem nisso como sendo a demolição de uma cidade ou de uma floresta, porque elimina tudo do caminho. E a destruição do habitat é inacreditável. A área do leito do oceano foi transformada de floresta para lama, estacionamento”, afirma.

Outra questão levantada pelo pesquisador é poluição biológica presente nesses ecossistemas. “Geralmente pensamos em vazamentos de óleo e mercúrio, e ouvimos muito sobre plástico atualmente. E tudo isso é revoltante, mas o que é realmente insidioso é a poluição biológica por causa da magnitude das mudanças que isso causa a todos os ecossistemas”.

Segundo Jackson, dois tipos de poluição biológica merecem destaque: uma é causada pelas espécies introduzidas, e a outra é o que vem dos nutrientes produzidos em ambientes desequilibrados. Espécies como a alga caulerpa taxifolia, liberada acidentalmente de um aquário em Mônaco e responsável pela asfixia de quase toda a vida que existe no leito noroeste do Mar Mediterrâneo, tem causado danos sem precedentes na vida marinha.

Já o excesso de nutrientes é causado por situações como a revolução verde, que utilizou fertilizantes de nitrogênio artificial em excesso e liberou suas sobras nos rios, alimentando os plânctons. “Mas já que comemos todas as ostras e todos os peixes que comeriam o plâncton, não há nada para comê-los. E a cada dia mais eles morrem de velhice, caem até o leito e apodrecem, ou seja, entram em decomposição pelas bactérias. E durante o processo, as bactérias usam todo o oxigênio, fazendo o ambiente ser absolutamente letal para tudo que não consegue nadar para longe. Então o que temos no fim é um zoológico microbial dominado por bactérias e águas-vivas”.

Ele ainda fala dos danos causados pelas mudanças climáticas. Um dos efeitos mais perigoso é o "branqueamento" de corais. O fenômeno acontece quando a água esquenta acima do normal e as algas, que vivem dentro dos corais em um processo de simbiose, não conseguem mais produzir açúcar.

“Os corais dizem: ‘você me enganou, não pagou o aluguel’. Eles expulsam as algas e elas morrem. Foi isso que aconteceu no Oceano Índico durante o El Niño de 1998, em uma área muito maior do que a América do Norte e Europa, quando 80% dos corais ficaram brancos e um quarto deles morreu”, diz o pesquisador.

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Fundo do mar após um arrastão

Caminho sem retorno

“E a coisa assustadora sobre tudo isso, a pesca indiscriminada, a poluição e a mudança climática, é que cada coisa não acontece no vácuo, mas existe o que chamamos de retorno positivo. As sinergias entre elas que faz tudo ficar muito maior do que a soma das partes. E o grande desafio científico para pessoas como eu pensando em tudo isso, é se nós saberemos solucionar todos esses problemas”, lembra Jackson.

Ele dá uma previsão assustadora para as próximas décadas. Não haverá peixes, exceto por alguns vairões, e a água será bem suja. As zonas-mortas serão ainda maiores e começarão a se fundir. Já as pessoas provavelmente não comerão peixes criados nesses locais, já que existirão sérios riscos de intoxicação.

“Mas o que é realmente assustador são as coisas oceanográficas físicas e químicas que estão acontecendo. À medida que a superfície do oceano se aquece, a água fica mais leve, tornando cada vez mais difícil para elas revolverem. A consequência disso é que todos os nutrientes que abastecem a pesca de anchovas, de sardinhas na Califórnia, ou no Peru, ou em outro lugar, vão diminuir, e as empresas de pesca vão falir. E ao mesmo tempo, a água da superfície, rica em oxigênio, não consegue descer e o oceano torna-se um deserto”.

Por fim, ele questiona o que a humanidade irá fazer para responder a tudo isso. “Podemos fazer tudo para consertar, mas numa análise final, o que realmente precisamos consertar somos nós mesmos. Não são os peixes, não é a poluição, não é a mudança climática. Somos nós e a nossa ganância e necessidade de crescer, e a nossa ineficácia em imaginar o mundo diferente do mundo egoísta em que vivemos hoje. Então a questão é: vamos responder ou não? Eu diria que o futuro da vida e a dignidade dos seres humanos dependerá disso.”

Assista a palestra na íntegra (para ver com legenda em português, clique na opção ao lado do play):



Tags: Água , Biodiversidade , EcoD TV , Mudanças Climáticas , Vida e Saúde , TED
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