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TED Chimamanda Adichie: o perigo de uma única história
Postado em Cultura em 23/12/2009 às 20h35
por Redação EcoD
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Criada em um campus universitário no leste de Nigéria, em uma família bem estruturada de classe média, a escritora Chimamanda Adichie nunca passou por maus tratos, fome ou falta de serviços básicos, como saúde e educação.

Leitora e escritora precoce, Adichie logo percebeu que havia algo estranho com suas histórias. “Todos os meus personagens eram brancos de olhos azuis. Eles brincavam na neve, comiam maçã e falavam muito sobre o tempo, em como era maravilhoso o sol ter aparecido”, comenta. Mesmo sem nunca ter saído da Nigéria, a pequena escritora já reproduzia exatamente aquilo que lia nos livros britânicos e americanos – maioria em sua estante.

Isso fez Adichie perceber o quanto o ser humano é impressionável e vulnerável diante de uma história. Graças à sua educação, ela conseguiu expandir sua percepção e compreender que pessoas como ela, que viviam situações com as quais ela se identificava, também poderiam existir na literatura.

 Ainda assim, Adichie começou a perceber o perigo que era ouvir única história sobre qualquer assunto. Quando foi cursar uma universidade nos Estados Unidos, aos 19 anos, a jovem sofreu com o preconceito e com os valores pré-estabelecidos que encontrou no novo país.

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Em uma das passagens mais marcantes, a escritora foi indagada pela sua colega de quarto onde ela havia aprendido a falar inglês tão bem, sem saber que a Nigéria tinha o inglês como língua oficial.

"Ela perguntou se podia ouvir o que ela chamou de minha 'música tribal' e, consequentemente, ficou muito desapontada quando eu toquei minha fita de Mariah Carey", conta. Apesar das perguntas descabidas, o que mais chocou a africana foi o fato de aquela pessoa sentir pena por ela antes mesmo de lhe conhecer.

“Sua posição padrão para comigo, como uma africana, era um tipo de arrogância bem intencionada, piedade. Minha colega de quarto tinha uma única história sobre a África. Uma única história de catástrofe. Nessa única história não havia possibilidade de os africanos serem iguais a ela, de jeito nenhum. Nenhuma possibilidade de sentimentos mais complexos do que piedade. Nenhuma possibilidade de uma conexão como humanos iguais”, reflete.

Com a convivência no país, Adichie logo começou a compreender a colega de quarto e entender o porquê daquelas únicas histórias. "Se eu não tivesse crescido na Nigéria e se tudo que eu conhecesse sobre África viesse das imagens populares, eu também pensaria que a África era um lugar de lindas paisagens, lindos animais e pessoas incompreensíveis, lutando guerras sem sentido, morrendo de pobreza e de AIDS, incapazes de falar por eles mesmo e esperando serem salvos por um estrangeiros branco e gentil", diz.

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Com a origem na literatura ocidental, a imagem negativa da África permanece até os dias de hoje, bem como diversas outras que são contadas todos os dias, mostrando sempre "diferentes versões de uma única história".

Então é assim que se cria uma única história: mostre um povo como uma coisa, como somente uma coisa, repetidamente, e será o que eles se tornarão", afirma a escritora que assume já ter estado no papel do ouvinte de únicas histórias em outras situações.
Baseadas em princípios de poder, essas histórias acabam ganhando os contornos e as visões dos mais fortes e são perpetuadas como a única verdade daquelas pessoas, mesmo que elas não possam contestar aquela realidade inventada com outras versões.

Adichie admite ter passado por situações difíceis na vida e que elas ajudaram a formar a mulher que hoje ela é. Mas ela defende que insistir somente nessas histórias negativas é uma forma de superficializar suas experiências e negligenciar as muitas outras histórias que a formaram. 

"Uma única história cria estereótipos. E o problema com estereótipos não é que eles sejam mentira, mas que eles sejam incompletos. Eles fazem uma história tornar-se a única história", relembra. Como consequencia, essas histórias acabam por roubar a dignidade das pessoas e dificultar o reconhecimento de nossa humanidade compartilhada, enfatizando como as pessoas são diferentes, em vez de como são semelhantes.

"Histórias têm sido usadas para expropriar e tornar maligno. Mas histórias podem também ser usadas para capacitar a humanizar. Histórias podem destruir a dignidade de um povo, mas também podem reparar essa dignidade perdida", diz. Adichie termina a palestra com um pensamento: "quando nós rejeitamos uma única história, quando percebemos que nunca há apenas uma história sobre nenhum lugar, nós reconquistamos um tipo de paraíso."

 



Tags: Cultura
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