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"Não caminhamos para o caos climático", afirma físico Paulo Artaxo
Postado em Mudanças Climáticas em 11/03/2010 às 16h05
por Redação EcoD
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Paulo Artaxo é professor do Instituto de Física da USP/Foto: Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo

O físico Paulo Eduardo Artaxo Netto é um dos cientistas brasileiros mais citados internacionalmente, segundo a Academia Brasileira de Ciências, da qual ele é membro desde junho de 2005. Professor titular da Universidade de São Paulo (USP), o pesquisador paulista dedica-se à física do meio ambiente há mais de três décadas, especialmente no que diz respeito à Amazônia e às mudanças climáticas. Paulo Artaxo também integra o Experimento de Larga Escala da Biosfera e Atmosfera da Amazônia (LBA), grupo vinculado ao Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

Nesta entrevista ao portal EcoDesenvolvimento.org, o cientista afirma que não são eventos "de duas semanas", como as conferências climáticas das Nações Unidas, que irão resolver problemas da dimensão do aquecimento global, além de contestar a visão de que o Painel Intergovernamental sobre Mudanças do Clima (IPCC, na sigla em inglês) da ONU, que ele integra, vive um período de descrédito. Artaxo também defende que o mundo não caminha para um "caos climático", mas ao mesmo tempo destaca a necessidade de construção de "uma nova sociedade".

EcoD: o colunista do jornal The New York Times, Thomas Friedman, afirmou recentemente que o clima do mundo "está cada vez mais esquisito", e que os estudos sobre os fenômenos climáticos globais ainda não atingiram a maturidade esperada. O que o senhor pensa a respeito?

Paulo Artaxo: Sim, é verdade que a percepção da população em geral de que as mudanças climáticas podem estar chegando é bastante visível. Embora ainda não é possível atribuir univocamente a causa deste "clima esquisito" às mudanças globais, é evidente que algo está acontecendo lentamente com o clima do nosso globo. Concordo também com a afirmação de que os estudos sobre os fenômenos climáticos globais ainda não atingiram a maturidade necessária, pois esta temática científica só esta sendo intensivamente pesquisada nos últimos 20 anos, e este prazo é curto do ponto de vista cientifico, mas é inegável o enorme progresso na ciência nesta área crítica para o futuro de nosso planeta. Nem sempre a ciência cresce com a mesma velocidade das necessidades.

EcoD: A Amazônia integra o foco de suas pesquisas desde o final da década de 1970. Qual é a importância do bioma amazônico para o clima do planeta e de que forma os problemas que o assola (como o desmatamento) influenciam na vida das pessoas?

Paulo Artaxo: A Amazônia é criticamente importante para o clima regional e global. O bioma amazônico é fonte importante de gases traços, aerossóis e vapor de água para a atmosfera global. O desmatamento altera bruscamente propriedades essenciais do ecossistema amazônico, incluindo a perda de biodiversidade. As emissões de queimadas associadas ao desmatamento têm efeito muito importante sobre a saúde da população que vive na Amazônia e também sobre o balanço de radiação e mecanismos de formação das nuvens.

EcoD: A ONU anunciou recentemente que pretende implementar um projeto de captura e armazenamento de carbono (CCS) nas indústrias dos países em desenvolvimento. Qual é a opinião do senhor sobre o CCS? Quais são as vantagens e/ou desvantagens desse sistema?

Paulo Artaxo: É importante explorar todas as possibilidades de redução de emissões de gases de gases de efeito estufa. Além da implantação maciça da utilização de energias renováveis, como a solar e eólica, é fundamental reduzir as emissões onde for necessário o uso de energia de combustíveis fósseis. Ainda não existem mecanismos de CCS que sejam economicamente viáveis, mas a tecnologia para sua implantação deve ser desenvolvida e aprimorada. Mas, o foco tem que ser na maior eficiência na produção e uso de energia, utilização de energias renováveis e redução do padrão de consumo.

EcoD: Alguma novidade sobre as pesquisas do LBA?

Paulo Artaxo: Sim, o programa LBA tem tido progressos notáveis no entendimento de como a Amazônia funciona em seus vários compartimentos. Os trabalhos de balanço de carbono, por exemplo, têm mostrado aspectos inesperados, de como a floresta responde à secas como a de 2005, ou secas artificiais como nos dois locais onde o LBA está fazendo experimentos de exclusão de chuvas. Os estudos de química atmosférica estão mostrando a complexidade do funcionamento biológico da floresta.

EcoD: De que forma as emissões da floresta, a formação das nuvens e as chuvas na Amazônia se relacionam?

Paulo Artaxo: Na Amazônia estes processos estão ligados por meio de processos climáticos e biológicos. A floresta é resultado de um conjunto de fatores que estão em equilíbrio. O clima é função não só de processos atmosféricos, mas as plantas emitem compostos gasosos que se transformam em partículas e atuam como núcleo de condensação de nuvens. As nuvens formadas, dependendo das condições termodinâmicas da atmosfera, podem gerar precipitação. O sistema é fortemente acoplado.

EcoD: Como o senhor vê a postura do governo brasileiro em relação as políticas de combate ao desmatamento da Amazônia? O ministro do Meio Ambiente (Carlos Minc), por exemplo, garantiu que "o desmatamento na Amazônia está controlado".

Paulo Artaxo: O processo de desmatamento na Amazônia depende de um grande número de processos, incluindo estratégias governamentais, clima, preço internacional de commodities, e muitos outros fatores. Observamos uma forte redução no desmatamento da Amazônia, onde em 2004 tivemos perto de 27.000 km2 desmatados e em 2009, cerca de 11.000 km2. Mas o governo brasileiro precisa estruturar políticas públicas que possam garantir que esta forte redução vai continuar e que a meta de redução de desmatamento de 80% vai ser atingida.

EcoD: A COP-15 foi considerada um grande fracasso em razão da ausência de um acordo jurídico capaz de dar prosseguimento ao Protocolo de Kyoto. Em dezembro, no México, teremos a COP-16. O senhor acredita que os chamados "líderes mundiais" concretizarão em Cancún aquilo que deixaram de lado em Copenhague?

Paulo Artaxo: Acredito que a maioria das pessoas tem expectativas não realistas sobre o processo de "solução" das questões de mudanças globais. A humanidade vai precisar de muito mais do que uma reunião de duas semanas para encaminhar a solução dos problemas globais. Os vínculos socioeconômicos e políticos são muito fortes. O tamanho do problema é muito maior do que qualquer problema que a humanidade lidou até hoje. Por isso, eu acredito que demorará pelo menos uma década para que a questão das mudanças climáticas globais seja satisfatoriamente encaminhada.

EcoD: O senhor também é membro do grupo de trabalho do IPCC. Na sua avaliação, o órgão que já ganhou até o prêmio Nobel da Paz em 2007 está em descrédito em razão da projeção errônea sobre as geleiras do Himalaia?

Paulo Artaxo: Eu não vejo um descrédito no trabalho do IPCC e da comunidade científica mundial que trabalha em mudanças climáticas globais. É importante salientar que as conclusões em um relatório de mais de 3.000 páginas, com mais de 10.000 referências, feito por centenas de cientistas não perdem a validade somente por uma referência errônea em um único parágrafo. Evidentemente a indústria que depende das emissões de combustíveis fósseis tem forte interesse econômico em desacreditar o trabalho de milhares de cientistas que trabalham com mudanças climáticas globais. A imprensa tem um papel importante em separar o que pode ser real e o que pode não ter fundamento científico ou que é irrelevante do ponto do vista de um relatório que pela primeira vez atribui a responsabilidade humana no aumento das concentrações de gases de efeito estufa.

EcoD: Existem soluções para o problema do clima mundial ou caminhamos a passos largos para o caos?

Paulo Artaxo: Eu tenho convicção de que nós não caminhamos para o caos climático. Teremos um clima diferente nas próximas décadas e nos próximos séculos. Quanto antes reduzirmos as emissões de gases de efeito estufa, menores serão as consequências para o clima futuro de nosso planeta. Esta é a nossa tarefa hoje: Construirmos uma nova sociedade, onde o uso dos recursos naturais seja feito de modo mais inteligente e sustentável em longo prazo. Esta é uma tarefa de cada ser humano em nosso planeta Terra.



Tags: Biodiversidade , Ciência e Tecnologia , Economia e Política , Energia , Mudanças Climáticas , Universidades
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"NÃO CAMINHAMOS PARA O CAOS CLIMÁTICO", AFIRMA O FÍSICO PAULO ARTAXO.

Comentado por NÍSIO DE SOUSA ARMANI, Eng Mec, Pesquisador C & T em 13/03/2010 00:05

REALMENTE SENTIMOS ORGULHO DE POSSUIRMOS O FÍSICO PAULO ARTAXO, BRASILEIRO COMO TODOS NÓS, QUE EM SUA ACERTIVA: "NÃO ESTAMOS CAMINHANDO PARA O CAOS", COMPROVOU CIENTÍFICAMENTE A PLENA POSSIBILIDADE DE CONCRETIZARMOS: 'A PROGRESSIVA REVERSÃO DAS GLOBAIS MUDANÇAS CLIMÁTICAS' E SABIAMENTE MOSTROU OS PRAGMÁTICOS CAMINHOS PARA TAL REVERSÃO.
AGRADECEMOS AO Dr. PAULO ARTAXO, POR TUDO QUE ESTÁ COLOCADO, ALIADO À ÉTICA INTRINSECA AOS VOSSOS DIZERES.
CONCORDAMOS PLENAMENTE COM V.Sa. E TEMOS CAMINHADO POR ESTES MESMOS CAMINHOS ORA DESCURTINADOS.
DE CERTA FEITA, APRESENTAMOS NO DECURSO DO 3º CONGRESSO MUNDIAL DE ENGENHARIA (WEC 2008), UM TRABALHO QUE VEM AO ENCONTRO DE DIVERSOS ENFOQUES POR VÓS ACLARADO.
# IMPORTANTE É DEMONSTRAR / COMPROVAR AS IRREFUTÁVEIS MUDANÇAS CLIMÁTICAS.
# MUITO MAIS IMPORTANTE É APRESENTAR CAMINHOS VIÁVEIS EM TODOS OS SENTIDOS, PARA REVERTERMOS O DESEQUILÍBRIO CLIMÁTICO.
V.Sa. CONSEGUIU CONCRETIZAR AMBAS FAÇANHAS SIMULTANEAMENTE.

Muito respeitosamente, agradecidos por tudo.

Nísio de Sousa Armani, Eng Mec, Pesquisador C & T.
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