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Mara Moraes faz peças de arte a partir de pranchas de surf quebradas
Transformar um material que iria para o lixo em um novo produto. O EcoD já mostrou diversos exemplos de como a reciclagem pode mudar a vida das pessoas e do mundo. Desta vez conversamos com Mara Moraes, uma paranaense que ama a natureza e constrói troféus de campeonatos e obras de arte a partir de pranchas de surf quebradas. As pranchas que antes eram uma interseção entre o homem e o mar, depois de velhas, eram jogadas no lixo sem nenhum cuidado. Mara, que reside no litoral paranaense, se incomodou com esta realidade e percebeu que aquele material poderia ser transformado em novas peças. Nesta conversa com o EcoD, Mara Moraes dá a dica: “No litoral, não jogamos mais pranchas de surf no lixo e por isso sinto o quanto os surfistas me agradecem, tanto quanto a mãe natureza”
EcoD - Como começou a idéia de desenvolver peças a partir das pranchas?
Mara Moraes - Em 2006, eu mantinha em minha casa um projeto cultural e artístico com os adolescentes desta região, tirando-os da ociosidade, pelo período de duas horas diárias. Certo dia, um dos participantes apresentou-me um pedacinho de bloco de poliuretano e uma lixa. Gostei do material e fomos então, em grupo, até a fábrica de pranchas Matheus Camargo, onde recolhemos todos os restos dos blocos e lixas do lixo, executando em seguida miniaturas de animais marinhos, chaveiros em forma de pranchinhas, mini skates etc. Em 2007, nosso projeto Espaço Cultural do Adolescente foi encerrado, por falta de verba. Prometi então aos “meus filhos do coração” que recuperaria nosso lar e, para entender melhor como funcionava uma entidade séria, precisei prestar vestibular no curso de Tecnologia em Gestão Pública, passei e finalizarei neste ano. Enfim, além da promessa de me instruir a respeito houve também a de poder me manter financeiramente fazendo algo pela natureza. Alguns dias após o encerramento do projeto, através de um pedaço maior de bloco que ganhei, executei de forma primitiva uma carranca africana, que me veio através de sonho, apresentando-se a mim como ULURÚ, um aborígene.
Foi o amor à natureza que te motivou a começar a criar peças a partir do lixo. Fale um pouco sobre esta relação.
Sempre fui amante do mar e do surf, mas devido a um pequeno acidente que tive há uns 10 anos atrás, ganhei alguns parafusos, pino e platina no tornozelo direito, o que me impossibilitou totalmente de continuar praticando qualquer esporte. Com isso, creio que acabei transferindo o desejo de surfar à arte, o que me realiza totalmente por dar nova vida às pranchas que seriam lançadas ao lixo e permanecerem no meio ambiente por milhares de anos até se decomporem.

Além das pranchas, Mara reaproveita madeiras de marcenarias
Você desenvolve apenas troféus ou também outras peças de outros tipos?
Todas as peças podem ser utilizadas como troféus ou peças de decoração, pois elas acontecem a partir de pesquisas que faço em livros, revistas, internet, envolvendo a arte mundial e, por isso, elas acabam me aparecendo em sonhos, com os respectivos nomes e significados de forma mística.
Como é seu processo de criação? É a prancha que te diz qual formato ela terá, ou você já sabe qual será o resultado antes mesmo de começar a dar forma para a prancha?
Primeiramente descasco a resina, serrando as laterais e retirando a longarina (espinha de madeira), após corto e lixo um bloco retangular, aproveitando o lado menos danificado do bloco. Através de um esboço no papel – eu aprendi sozinha a desenhar para poder executar cada peça - transfiro-o para o bloco em maior forma. Para entalhar, utilizo-me apenas de lápis para dar o efeito de alto ou baixo-relevo. A pintura é feita através de pincel e tinta acrílica à base d’água, de preferência as metálicas. Eu também reaproveito tocos de madeiras que marcenarias jogam no fogo por falta de utilidade (usadas como pedestais dos troféus).
Você vê uma mudança comportamental na população, nos surfistas e até mesmo pessoal?
Há dois anos e meio posso dizer que me tornei uma pessoa extremamente feliz, pois consigo mobilizar muitas pessoas, muitos amantes da natureza, sejam jovens, adultos, idosos, ou até mesmo a empresa de coleta de lixo do município de Pontal do Paraná. Pessoas que me cercam para falar que seu irmão, pai, filho ou neto tem uma prancha à minha disposição, ou ainda, há aquelas que empilham várias pranchas em seus carros e percorrem vários quilômetros para trazê-las até mim. Enfim, sou agraciada por elogios, não somente pelas esculturas, mas pela nobre atitude da reciclagem.

Veja mais fotos das obras desenvolvidas por Mara Moraes em seu perfil
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