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Camila começou a pedalar aos nove anos e manteve a pratica mesmo na cidade grande/Fotos: Divulgação
Quando tinha apenas nove anos, a jovem Camila Zanon começou a andar de bicicleta pelas ruas da pacata Fernandópolis, cidadezinha no interior de São Paulo. Aos 12 anos ela se mudou para a capital paulista e descobriu que a vida na cidade grande era mais fácil sobre duas rodas.
“São Paulo tem um trânsito péssimo, chove muito e eu gastava muito tempo parada nos engarrafamentos. Quando eu vim pra cá, achei tudo muito doido, sem condições de transitar. Aí comecei a usar a bike para ir a todos os lugares e não parei mais”, conta a jovem ciclista de 25 anos.
Hoje Camila trabalha em uma multinacional e usa a bicicleta todos os dias para se locomover pela cidade. Ela conta que só para ir ao trabalho são 32 km, depois mais 24 para a faculdade e depois tudo de volta para casa. Ao todo são mais de 80 km diários de pedalas que Camila enfrenta todos os dias sem dificuldades.
Mas no início não foi assim. “Era bem difícil, todo mundo criticava, até minha família. Eles eram totalmente contra porque falavam que eu ia ser assaltada, que iam me atropelar. Então eu acho que tem que deixar o medo de lado, ir com cautela, começar aos poucos e ter força de vontade”, defende. A jovem pegou o jeito e hoje também participa de competições de mountain bike e passeios ciclísticos.
Tanta determinação vem de família. Aos 79 anos, a avó de Camila, dona Terezinha, também usa a bicicleta como meio de transporte em sua cidadezinha, no interior do Maranhão. “Ela vai ao mercado, busca os netos na escola, faz tudo de bike”, conta.

Hoje, a analista de sistemas pedala mais de 80 km todos os dias entre a casa, o trabalho e a faculdade
Saia na Noite
Essa inspiração é usada por Camila para incentivar outras mulheres que participam pela primeira vez do grupo Saia na Noite. Camila é a puxadora da equipe, uma espécie de auxiliar das novas ciclistas, e conta emocionada das histórias de coragem e superação das mulheres que resolveram encarar a cidade sobre duas rodas.
“Tem muita gente que procura o grupo e diz: ‘Ah, eu quero pedalar a noite, mas eu não consigo, eu nunca pedalei, não quero que ninguém fique rindo de mim’. Então procura um grupo só de mulheres porque nos grupos de homem a pedalada geralmente é mais forte”, lembra.
E foi com o objetivo de atrair este público feminino que foi criado o Saia na Noite, em 1992, por um pequeno grupo de mulheres que já praticavam o ciclismo. Hoje a equipe conta hoje com dezenas de mulheres entre 50 e 65 anos que pedala “até mais do que muitos homens”, garante Camila.
Os encontros são todas terças-feiras à noite e vai além de um mero passeio, serve também como terapia. “Tem muitas mulheres que vêem quando separam dos maridos. Elas começam a descobrir coisas novas, fazem novas amizades, algumas se tornam amigas inseparáveis”, conta com entusiasmo.
Uma dessas amizades surgiu entre a própria Camila e a fundadora e coordenadora do projeto, Tereza D'Aprile. Camila diz que a amiga começou a pedalar com mais de 50 anos, contrariando todos que não acreditavam nela. Pouco tempo depois do início das pedaladas, Tereza participou de uma competição de ciclismo e ganhou o terceiro lugar.

O grupo Saia na Noite, do qual Camila é "puxadora", reúne mulheres dispostas a pedalar nas ruas da capital paulista
Força e coragem
“Aqui mostramos pra todo mundo que não é a idade, que não são os problemas que nós temos, a gente ainda pode fazer o que gosta. As vezes nós viajamos e elas olham uma montanha e falam ‘há, mas eu não vou conseguir’. Aí vou lá e mostro que elas conseguem sim, digo: “vocês já conseguiram tanta coisa na vida, pedalar não é nada.”
Para aquelas que não se sentem seguras de sair às ruas de bicicleta e à noite, Camila tranquiliza: “Nós sempre pedalamos a noite e nunca fomos assaltadas nem incomodadas”.
Já as que têm medo de subir na bicicleta, o recado é o mesmo: “As vezes eu fico a noite inteira ao lado de algumas mulheres que estão lá pela primeira vez, e elas andam a 5km/h, mas eu as acompanho ao longo de todo o percurso, dando força, ajudando no trânsito, oriento sobre a bicicleta, ajusto bancos”.
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Histórias de amizade e superação são frequentes no grupo
Mais do que uma pedalada
Com essas facilidades é possível encontrar de tudo no grupo. “Tem mulheres que vão de sapato e de saia”, conta. A única regra é usar os itens de segurança: capacete e lanterna.
“Algumas já levam até os maridos e eles hoje respeitam mais suas mulheres. Elas estão fazendo uma coisa que gostam, estão se cuidando, se preocupando”. O resultado, além do bem-estar e das novas amizades, é que muitas já estão incorporando a bicicleta no seu dia a dia.
“Tem uma que se mudou pra Campinas e conta que usa muito a bicicleta na cidade, diz que lá dá pra fazer quase tudo de bike. Tem outra que foi pra Dubai e diz estar usando muito a bicicleta, falou que o sistema lá já é melhorzinho”.
Quando questionada sobre o que diria às pessoas que querem adotar a bicicleta, mas ainda não tem coragem, Camila afirma: “Na vida a gente tem muitos desafios, e acho que ao pegar uma bicicleta e pôr na rua, você já está diferente de todo mundo. E nós somos um pontinho fazendo a diferença, você não está fazendo bem só pra você, mas pra muita gente”.

Camila dá dicas para quem quer pedalar: comece aos poucos e não descuide dos itens de segurança
Conselhos
Sobre os perigos e desafios de se adotar a bicicleta, Camila opina: “O trânsito é perigoso? É, mas a gente tem que tomar cuidado e mostrar pra quem está dirigindo que a gente não quer passar por cima deles, nem dizer que a bicicleta é muito melhor que o carro, até porque carro também é necessário em alguns momentos, mas mostrar que a gente está buscando um espaço e que a gente merece respeito.”
E para as pessoas que querem começar, Camila aconselha a fazer primeiro um teste. “Você vai ver que tudo muda, seu dia fica totalmente diferente, você acorda mais disposto, você tem certeza da hora que você vai chegar no trabalho, você acaba conhecendo melhor a cidade”, diz. “sem falar que eu me sinto menos cansada e minha respiração melhorou muito”.
Ela ainda dá algumas dicas, como aproveitar academias e clubes próximos ao trabalho para tomar banho antes do expediente e ter sempre uma bomba de pneu para as eventualidades. “Sempre encontramos alguns probleminhas, mas quando queremos uma coisa não há desculpas no mundo que nos impeça de conseguirmos”.
Veja alguns conselhos de Camila para quem pensa em adotar a bicicleta como meio de transporte;
• Comece devagar. Testar o trajeto no fim de semana, quando o trânsito está mais calmo, é uma boa opção.
• Cuidado com os itens de segurança. Pisca traseiro, lanterna, capacete, câmera de pneu e bomba devem estar sempre acessíveis.
• Criatividade na hora do banho. Se o seu trabalho não tiver um banheiro com chuveiro, procure clubes e academias próximos e peça para pagar apenas para tomar banho.
• Atenção ao trânsito. Não pedale no passeio e respeite as regras de trânsito. Também fique atento aos carros e ônibus e tenha cuidado redobrado nas vias mais movimentadas.
E se você também conhece alguém inspirador, mande um e-mail para redacao.ecodesenvolvimento.org.br e nos conte a sua história.
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