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Existe vida literária na internet?/Foto: Guillermo Esteves
Existe vida inteligente na internet quando o assunto é a literatura? Escritores de formações culturais distintas como Beatriz Resende, Marcelino Freire, Chico Buarque e Humberto Werneck debateram o tema, mesmo que em eventos separados, durante a 7ª Festa Literária de Paraty (Flip), realizada entre os dias 3 e 5 de julho, no Rio de Janeiro. Algumas opiniões são mais otimistas e seguem o embalo de fenômenos da web como os blogs e o Twitter. Outras demonstram cautela, e preferem esperar mais tempo.
Autora de livros sobre crítica cultural, Beatriz Resende considera a grande novidade do universo literário o uso da internet para divulgar as obras de escritores que estão dando os primeiros passos. “A novidade é essa nova vida literária, essa circulação de autores, o interesse das editoras por uma literatura que é postada, colocada na web”, afirmou a escritora, ao mediar à mesa O Avesso do Realismo, na sexta-feira, 3 de julho.
De acordo com a Agência Brasil, ela citou como exemplo o caso da jovem Ana Paula Maia, autora de três romances, entre eles A Guerra dos Bastardos. “Ela publicou o primeiro romance, que teve boa recepção, mas não conseguiu editora para o segundo romance. Escreveu o terceiro e nada. Aí, decidiu colocar na web, em capítulos. E a coisa funcionou, começou a chamar a atenção. Pouco depois, Ana Paula publicou os dois romances, acrescidos de uma novela genial. É um exemplo de como usar essas novas mídias a seu favor”, defendeu.
Na mesma linha está o escritor Marcelino Freire, autor de Balé Ralé e Angu de Sangue. O blog é um dos seus instrumentos de trabalho e, por meio do Twitter, adotado recentemente, quer postar 1.001 “contos nanicos”. “Acho o Twitter uma mania de perseguição, uma coisa esquizofrênica. Você está me seguindo, eu estou te seguindo. Mas quem está te seguindo, você não conhece, nunca viu na vida. Isso é uma neurose. Mas o que vou fazer com isso? Literatura. Onde ela, literatura, puder estar, seja no celular, no Twitter, acho ótimo”, ressaltou.
Outros olhos
Mas nem todos os escritores compactuam com o entusiasmo de Resende e Freire. Ao menos até o momento. O jornalista e escritor Humberto Werneck, por exemplo, advertiu que a internet não pode ser considerada a solução para a nova safra de autores. Para Werneck, ainda é cedo para avaliar a produção literária postada na web. "É bom à gente não considerar a internet a solução. Está havendo agora um saudável estouro da boiada. A internet hoje permite a qualquer pessoa dizer o que quiser. Mas já começamos a entrar no segundo momento, que é uma peneira, uma seleção dessa enorme massa", avaliou, no sábado, 5, ao término da Flip.

Saramago: "Escrevo no blog como se estivesse escrevendo a página de um livro"/Foto: adrenalin
Werneck reconheceu que a internet contribui para ampliar o acesso à literatura, mas alerta que recorrer à web não garante aos novos autores um lugar na estante dos leitores. "É muito bom que todo mundo possa mostrar o que faz. Mas é vital que tenha qualidade para perdurar um pouquinho. As pessoas não podem acreditar que, porque publicam na internet, têm garantido um lugar entre os autores que, de fato, são lidos", alertou.
Na sexta-feira, 3, foi a vez do músico e escritor Chico Buarque opinar sobre o tema, durante sua participação no evento. De forma mais ampla, o artista comentou o boom da internet e a relação da web com as formas de pensamento do seguinte modo: “a imaginação já não existe mais. Agora tudo está no Google”. Ele confessou que também costuma recorrer ao site de buscas mais acessado do mundo.
Na semana passada, José Saramago, prêmio Nobel de literatura afirmou que o lado ruim da internet nesse sentido é que essa ferramenta tem possibilitado a disseminação de conteúdo sem qualidade, já que, segundo o escritor português, "qualquer um pode escrever qualquer coisa". O autor de "Ensaio sobre a cegueira", o "Evangelho segundo Jesus Cristo" e "Intermitências da Morte", entre outros, destacou que escreve em seu blog pessoal com o mesmo cuidado empregado nas páginas dos livros. Ele considera os blogs verdadeiros "fenômenos de massas".
*Com informações da Agência Brasil
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