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Em pleno século XXI, 27 milhões de seres humanos são mantidos como escravos em todos o planeta/Fotos: Divulgação
O professor de direitos humanos Kevin Bales não podia acreditar que, mesmo sendo um profissional renomado, não conhecia a realidade das 27 milhões de pessoas mantidas como escravos em pleno ano de 2010.
“Estou falando de escravidão de verdade. Trata-se de pessoas que não podem sair, que são obrigadas a trabalhar sem pagamento 24 horas por dia, sete dias por semana, sob ameaça de violência. É escravidão exatamente da mesma forma que tem sido reconhecida através de toda a história humana”, conta.
Munido de curiosidade e com o orgulho acadêmico ferido, ele decidiu fazer uma pesquisa sobre o assunto e descobriu que em todos os países do mundo, com exceção da Islândia e da Groenlândia, haviam casos de escravidão contemporânea.
“Eu observei a fundo os negócios baseados na escravidão, pois esse é um crime econômico. As pessoas não escravizam gente para fazerem mal a elas. Elas fazem isso para ter lucro”, diz. Além do estrago econômico e do extermínio dos direitos humanos, a escravidão é também um fator de destruição ambiental, conta o professor.
“Ao redor do mundo, escravos são usados para destruir o ambiente, cortando árvores na Amazônia, destruindo áreas florestais na África Ocidental, extraindo e espalhando mercúrio ao redor em lugares como Gana e Congo, destruindo os ecossistemas costeiros do sul da Ásia. É uma ligação dilacerante entre o que está acontecendo ao nosso ambiente e o que está acontecendo a nossos direitos humanos”, afirma.

Apenas a Islândia e a Groelândia ficaram de fora da lista dos países que mantêm pessoas escravas
Soma de fatores reforça o problema
A explosão populacional, a vulnerabilidade de milhões de pessoas ao redor do mundo, as guerras civis, conflitos étnicos, governos cleptocráticos, doenças e a falta de oportunidades são alguns dos fatores que apóiam a existência da escravidão moderna.
“Mas isso não transforma as pessoas em escravos. O que é preciso para transformar uma pessoa que é carente e vulnerável em um escravo é a ausência do predomínio de lei. Se o predomínio da lei é bem estabelecido, ele protege os pobres e os vulneráveis. Mas se a corrupção entra em cena e se for possível usar a violência com impunidade, então é possível ir atrás dos vulneráveis e apanhá-los na escravidão” afirma o pesquisador.
Ele conta que nos dias de hoje, a suposta oferta de emprego é a maior armadilha utilizada pelos senhores de escravo para atrair as vitimas. Desesperados pela falta de oportunidade, as pessoas acabam subindo na traseira do caminhão e só descobrem que foram escravizados quando tentam fugir e são impedidos.
Para agravar a situação, Bales informa que o valor do escravo caiu, especialmente em relação ao período da escravidão colonial. “O preço do ser humano ao longo dos últimos 40 mil anos em moeda de hoje, esteve na média de 40 mil dólares. Ativos de capital. O preço médio de um ser humano hoje, no mundo todo, é de uns 90 dólares”, diz.
“Eles são mais caros em lugares como a América do Norte, onde custam entre três e oito mil dólares. Mas eu poderia levá-los a lugares na Índia ou no Nepal onde seres humanos podem ser comprados por cinco a 10 dólares. A causa fundamental disso é que as pessoas deixaram de ser aquele ativo de capital e se tornaram algo como copinhos de isopor. Você os compra bem baratinhos. Você os usa. Você os esmaga. E então, quando você acabou com eles, você simplesmente os joga fora”, explica.
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Bales também é autor do livro Ending Slavery: How We Free Today's Slaves
Luz no fim do túnel
Apesar das notícias desanimadoras, o pesquisador afirma que há um lado positivo, já que nunca na história da humanidade a fração da população global escravizada foi tão pequena e nunca esse tipo de comércio rendeu tão pouco em relação à economia global.
“A escravidão, que é ilegal em todos os países, foi empurrada para as margens de nossa sociedade global. E, de certo modo, sem que sequer percebêssemos, acabou encurralada no precipício de sua própria extinção, esperando que nós lhe déssemos um grande pontapé e a derrubássemos e nos livrássemos dela. E isso pode ser feito”, afirma.
Para isso, ele diz ser necessário investir não apenas na libertação, mas também na reabilitação dessas pessoas dentro da sociedade. “Não é um evento, é um processo. Trata-se de ajudar as pessoas a construírem vidas com dignidade, estabilidade, autonomia econômica, cidadania”.
Bales fez uma conta de quanto seria necessário para libertar de forma sustentável todas as 27 milhões de pessoas que vivem hoje em regime de escravidão. O resultado foi uma soma de 10,8 bilhões de dólares. “O mesmo que os americanos gastam em batatinhas e rosquinhas, o mesmo que Seattle vai gastar em seu sistema de bondes, geralmente o que se gasta por ano neste país, em blue jeans”, atenta.
“Isso não é dinheiro demais no nível global, na verdade, são uns trocados. E a grande vantagem disso é que não é dinheiro jogado pelo ralo, existe um dividendo de liberdade. As pessoas libertadas tornam-se consumidores e produtores e as economias locais iniciam um ciclo de crescimento rapidamente”, reforça.
O palestrante faz um alerta para que a libertação contemporânea não repita os erros da que ocorreu no passado. “Pessoas foram marginalizadas sem participação política, sem educação decente, sem qualquer espécie de oportunidade real em termos de existência econômica, e foram sentenciadas a gerações de violência e preconceito e discriminação”.
Bales conclui sua palestra fazendo um último questionamento. “Precisamos perguntar a nós mesmos se estamos dispostos a viver num mundo com escravidão, que é a violação fundamental de nossa dignidade. Para que serve todo nosso poderio intelectual, político e econômico se não podemos usá-lo para dar um fim à escravidão? Se não formos capazes disso, será que somos realmente livres?”.
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