| As obras de mobilidade urbana têm avançado em sua cidade? | |

Recentemente, o brilhante jornalista Malcolm Gladwell, autor de Blink e Outliers, escreveu no blog da revista New Yorker dizendo que o Twitter e Facebook foram menos importantes na revolução do Egito do que se faz crer. Gladwell escreveu um parágrafo que é de encher os olhos dos românticos que acham que revolução de verdade eram aquelas que aconteceram na Europa por mobilizações espontâneas, como a turma que derrubou o muro de Berlim ou antes disso o pessoal da Revolução Francesa. Ninguém vai desmerecer o fato e a importância dos movimentos e que isso se deu sem telefone ou Facebook e mesmo assim fizeram a revolução.
Mas discordo que no Egito o fato menos importante de tudo é o quanto as pessoas que estavam na rua foram ou não mobilizados por alguma rede social.
Brian Solis, um expert em redes sociais e relações públicas, autor do livro Engage, argumentou que Gladwell perdeu o ponto da discussão. Para Solis, o que está por trás do uso das redes sociais neste momento é o poder de ativação. E nisso eu concordo mais com ele do que com Gladwell.
O fato de as pessoas estarem em contato constante umas com as outras sem dúvidas nenhuma ajuda um movimento a ganhar força rapidamente. Há pensadores argumentando que se não fosse pelo fato de que há crise econômica no Egito, ninguém se mobilizaria para sair às ruas para derrubar um ditador. Ok, mas vamos juntar então a insatisfação pela crise econômica, com a velocidade de tráfego de informação com a abertura ao mundo exterior e ver o que acontece: mobilizações potencializadas pela velocidade. Queiram ou não os regimes, as pessoas sabem na velocidade da luz que há uma crise no país vizinho (como a população do Egito soube da revolução na Tunísia).
Verdade seja dita que os governos não ignoram mais esse poder. Ou o Egito não teria derrubado a internet do país na vã tentativa de estancar o descontentamente que já havia vazado do mundo online para o real (que no fundo, hoje, já são na grande maioria dos casos a mesma coisa). Também a China não teria proibido a busca pela palavra Egito nas ferramentas de busca que aos trancos e barrancos funcionam no país (o Google ameaçou deixar a China, lembram?).
Também por saberem deste potencial, os ditadores podem usar as ferramentas sociais ao seu favor. Na Síria, Bielo-Rússia e Irã, o governo está perseguindo ativistas pelo que eles dizem nos seus perfis no Facebook, Twitter ou qualquer outro. É o outro lado da moeda. Você tem liberdade para se expressar, mas saiba que alguém do outro lado está lendo. Scott Shane escreveu no NY Times sobre isso e o Estadão reproduziu aqui.
O ponto em questão é o quanto as possibilidades de informação se expandem e como se faz importante saber o potencial que oferecem. E aqui vale falar da teoria dos laços fracos, de Mark Granovetter. Os laços fortes são aquelas pessoas que você conhece muito bem e os laços fracos são representados por aquele colega de trabalho que você encontra de vez em quando em uma reunião ou mesmo um ex-colega de escola. Pois bem, as ferramentas sociais de mais sucesso hoje são Facebook, Orkut, MySpace, Twitter etc, porque se apóiam nos laços fracos.
A lógica é a seguinte: os laços fortes pensam exatamente como você, têm os mesmos interesses, portanto, não agregam muito valor sob o ponto de vista do conhecimento. Já os laços fracos têm um incrível potencial de agregar mais conhecimento, assim como o de ampliar a disseminação de qualquer mensagem. Exemplo: quão poderosa e importante para a sensação de que está dando certo um movimento a distribuição de um video destes pela internet, sem filtros, sem interferência do governo, apoiada na distribuição via laços fracos?
Os laços fracos catalisam movimentos à medida que ajudam a disseminar informações mais rapidamente. Aumentam o potencial de qualquer ideia, tema ou projeto. Iniciativas como Kiva e Kickstarter se apóiam nisso para dar visibilidade e viabilidade a projetos do mundo inteiro financiados por pessoas do mundo inteiro.
E, sem dúvidas, tem o potencial de causar terremotos políticos e até de derrubar governos linha-dura que limitam a liberdade (e portanto o potencial) de milhares de pessoas. O video abaixo é um exemplo primoroso da manifestação desta vontade de liberdade.
Tá, pode ser que o Twitter e o Facebook não tenham sido cruciais nestas mobilizações, mas o fato é que minimizar — ou tentar ridicularizar — o seu efeito se presta a duas coisas, na minha opinião: 1) criar polêmica e 2) criar polêmica. Não consigo acreditar que alguém com o calibre intelectual de Gladwell não queira aceitar os efeitos da sociedade conectada em rede.
A pergunta está na direção errada. Não deveria ser se o Egito precisa de Twitter. Mas quando o Twitter e outros ajudaram a disseminar a mensagem de modo mais veloz entre a sociedade.
(Atualização – 10/02/11)
O Estadão de hoje publicou artigo de Thimothy Phelps, do Los Angeles Times, lembrando o quanto as redes foram importantes em 2008, nas raízes do movimento que se alastrou pelo Egito.)
É jornalista e autor do blog sobre comunicação, sustentabilidade e empresa 2.0 A Ficha Caiu.
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