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O verão no Rio Grande do Sul e seus resíduos sólidos
Por Luana Portz

Neste mês, na coluna sobre Lixo Marinho do site EcoD, conversei com a Oceanógrafa Luana Portz, que atualmente é doutoranda na Universidade Federal do Rio Grande do Sul desenvolvendo trabalhos de gerenciamento costeiro e manejo de dunas. Durante o monitorante das dunas e pós-praias do município de Xangri-lá, litoral norte do RS, Luana constatou a concentração de grandes quantidades de lixo sobre estas regiões, iniciando um estudos relacionado a presença destes materiais na praia em diferente estações do ano. Conheça um pouco do trabalho da Luana e das ações de educação ambiental que ela vem desenvolvendo.

Juliana Ivar do Sul*


O litoral do Rio Grande do Sul (RS) apresenta uma particularidade quando comparado a maioria das praias do Brasil. Esta diferença se refere principalmente à localização geográfica do estado que resulta em invernos rigorosos, afastando os turistas e a população local de atividades realizadas na beira da praia nos meses desta estação (Figura 1a). Para se ter uma idéia, na baixa temporada (inverno, junho - agosto) a população do município de Xangri-lá, um dos balneários mais tradicionais da Litoral Norte do RS, é de aproximadamente 10.500 habitantes. Já na alta estação (verão, dezembro - fevereiro) a população flutuante gira em torno de 100.000 pessoas, quando é intensa a atividade de turismo nas praias da região (Figura 1b). 

Com o aumento intenso da população nos meses de verão, o município de Xangri-lá, sofre de uma carência em infra-estrutura básica (abastecimento de água, tratamento do esgoto cloacal, destinação final dos resíduos sólidos...), equipamentos e recursos humanos nos setores de saúde, limpeza, educação e ambiental. Neste mesmo período são instalados quiosques fixos na zona de pós-praia que contribuem para a concentração de pessoas e, consequentemente, para o aumento dos impactos antrópicos sobre o ambiente praial e zonas adjacentes (dunas e restinga).

Por outro lado, o veraneio e o turismo são as atividades economicamente mais importantes no litoral norte do Rio Grande do Sul, e em muitos casos a única fonte de renda do ano inteiro. O veraneio constitui uma forma de lazer típico da classe média, caracterizado pelo uso eventual no verão ou nos fins de semana de residências próximas à praia. Já o turismo se constitui tipicamente na atividade de visitação orientada para aspectos paisagísticos e/ou culturais, não implicando necessariamente numa forma de ocupação intensa.

Fundamentado na diferença de ocupação das praias nas diferentes estações do ano, foi desenvolvido em Xangri-Lá um estudo com o objetivo de quantificar, classificar e determinar as fontes do lixo marinho, além de estabelecer padrões espaciais e temporais do estoque destes materiais na praia. As coletas foram realizadas em abril, agosto e fevereiro.

figura1
Figura1: Diferenças entre o (a) inverno e (b) verão na praia de Xangri-lá, no litoral norte do Rio Grande do Sul.

Os resultados obtidos neste estudo, já disponível no site da Revista da Gestão Costeira Integrada, mostraram que o mês de fevereiro foi o mais contaminado por lixo marinho depositado na região do pós-praia, um padrão já esperado em praias turísticas como Xangri-Lá. Além disso, o mês de agosto estava significativamente menos contaminado que o mês de fevereiro em decorrência da diminuição das atividades de turismo e veraneio. Já na região das dunas, inverno e verão encontram-se igualmente contaminados por lixo marinho em decorrência da fragmentação em itens menores e da retenção destes pela vegetação existente. Além dos plásticos, itens mais amostrados, também foram observados resíduos da construção civil, podas de árvores e de grama, que são diretamente abandonados nas dunas ao longo do ano. Com ausência de serviços de limpeza urbana durante os meses de inverno, os resíduos sólidos tendem a permanecer na praia por muito tempo, sendo continuadamente depositados, soterrados e disponibilizados novamente quando ocorre erosão, causada por ressacas ou pela ação do vento.

A falta de responsabilidade por parte dos proprietários dos quiosques também é responsável pela elevada concentração de resíduos sólidos no entorno destes estabelecimentos.
Através destes resultados fica claro que os frequentadores desconhecem os problemas causados pela presença de lixo na praia, sendo necessária a implantação de programas de esclarecimento e educação ambiental ao invés de técnicas utilizadas nas praias do sul do Brasil, como a distribuição de sacolas plásticas e de panfletos de conscientização, que acabam por se tronar lixo marinho.

Neste sentido, a implementação de programas de educação ambiental torna-se um componente fundamental e um importante instrumento para o entendimento e, consequentemente, para a conservação destes ambientes, já que os sistemas humanos e os sistemas ambientais interagem de duas formas: através das ações humanas que causam diretamente mudanças ambientais e onde estas mudanças afetam diretamente o que os seres humanos valorizam.

A partir deste trabalho foi possível desenvolver um material de apoio a educação ambiental voltada aos ambientes costeiros do município de Xangri-lá. O material foi inspirado no livro “Educação dos Sentidos e Mais...”, do escritor Rubem Alves, onde se partiu dos sentidos da audição, visão e tato para propor as dinâmicas. Uma das principais propostas deste trabalho é a implantação de ações de educação ambiental nas escolas (Figura 2), podendo ser aplicadas em associações de moradores e nas áreas frequentadas por turistas e veranistas, pois através de um programa interdisciplinar e de campanhas informativas, pode-se chegar à conscientização da população frente ao meio ambiente, apontando os problemas existentes e discutindo soluções praticáveis. Este material pode ser solicitado através do e-mail luanaportz@gmail.com.

figura2
Figura 2: Trabalho desenvolvido em uma oficina de arte e reciclagem


Luana Portz

 

Doutoranda na Universidade Federal do Rio Grande do Sul desenvolvendo trabalhos de gerenciamento costeiro e manejo de dunas.
E-mail: luanaportz@gmail.com

 

*Juliana Ivar do Sul é Coordenadora Científica do Projeto Lixo Marinho – Associação Praia Local Lixo Global
E-mail: juliana.sul@globalgarbage.org

Esta coluna é escrita mensalmente por especialistas que estudam o tema lixo marinho em diferentes estados brasileiros.

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