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Em agosto, conversei com Arthur Antônio Machado, do Laboratório de Oceanografia Geológica da Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Conheça um pouco da experiência do Arthur com o lixo marinho na ilha do Arvoredo, e as ações necessárias para minimizar este problema.
Juliana Ivar do Sul*
Minha experiência em trabalhar com lixo marinho começou em 2003, quando participei de um projeto voltado ao monitoramento do lixo na praia do Cassino, litoral sul do Rio Grande do Sul, realizado pelo grupo de pesquisa do Laboratório de Microcontaminantes Orgânicos e Ecotoxicologia Aquática (CONECO - FURG). Em meados de 2004, participando de outro projeto, tive a oportunidade de conhecer a ilha do Arvoredo, no litoral central de Santa Catarina (27°17' S, 048°22’ W).
A ilha faz parte da Reserva Biológica Marinha do Arvoredo (RBMA), gerenciada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), e enquadra-se na mais restritiva categoria das Unidades de Conservação (UC). Entretanto, a face oeste da ilha do Arvoredo não faz parte da RBMA, sendo permitidas atividades como pesca e turismo (com desembarques autorizados somente pelo IBAMA ou Marinha do Brasil). Ao realizar mergulhos nas águas adjacentes à ilha e também caminhadas justamente pela face oeste, que não faz parte da reserva, observei uma grande quantidade de lixo tanto no fundo do mar quanto nos costões rochosos que cercam a ilha. Retornando ao CONECO, conversei com o meu orientador na época, Dr. Gilberto Fillmann, sobre a possibilidade de realizar minha monografia de conclusão de curso na ilha do Arvoredo, enfocando assim a contaminação por lixo marinho na área não protegida pelas regras rígidas de uma UC.
Assim, adaptamos a metodologia utilizada em praias arenosas, como a praia do Cassino, para o costão rochoso que cerca a ilha e os métodos de busca e recuperação (técnica utilizado por mergulhadores autônomos para localizar e resgatar objetos perdidos no fundo do mar) para monitorar o lixo existente no fundo do mar imediatamente adjacente à ilha. Realizamos amostragens sazonais para avaliar a ocorrência de lixo marinho ao longo de um ano, tanto nos costões rochosos quanto no fundo.

Figura 1: Garrafas PET nos costões rochosos que cercam a Ilha do Arvoredo. Foto: Arthur Machado.
A face oeste da Ilha do Arvoredo apresentou grandes quantidades de lixo marinho ao longo de todo ano, tanto no fundo do mar quanto nos costões rochosos. Estas quantidades foram superiores quando comparadas aos resultados observados em outras ilhas estudadas em diferentes partes do mundo, como na Austrália. O isopor e o plástico, como as garrafas PET (Figura 1), foram os tipos de itens mais amostrados nos costões rochosos, representando um grave problema já que estes materiais não se degradam facilmente, permanecendo no ambiente por longos períodos de tempo.
No fundo marinho adjacente à Ilha do Arvoredo foram observas menores quantidades de lixo quando comparadas ás quantidades amostradas nos costões rochosos. Foram amostradas principalmente linhas e redes de pesca que possuem baixa flutuabilidade e se depositam no fundo (Figura 2). Estes tipos de resíduos causam grande impacto ao ambiente, diminuindo suas qualidades cênicas, e à biota marinha, que pode ficar parcialmente ou totalmente enredada, o que pode levar à morte do animal.

Figura 2: Redes de pesca e cordas comumente amostradas no fundo do mar adjacente a Ilha do Arvoredo.
Acredita-se que as fontes do lixo marinho observado na Ilha do Arvoredo sejam as grandes cidades costeiras como Florianópolis e Itajaí, contribuindo com lixo gerado no continente, assim como o grande fluxo de embarcações de pesca e turismo que navegam ao largo da ilha, contribuindo com o lixo acidentalmente ou intencionalmente lançado ao mar.
Durante minha permanecia na ilha do Arvoredo, observei alguns ‘bolsões’ de lixo flutuando ao redor da ilha. Estes ‘bolsões’ eram formados por resíduos grandes, como redes de pesca, cordas, cabos, entre outros. Eu e meus companheiros de expedição procurávamos remover o máximo deste lixo do ambiente marinho, já que este pode representar um grave problema para a fauna marinha que habita a região, como tartarugas, golfinhos, diversas espécies de peixes, e até de baleias que visitam águas próximas.
A implantação de um plano de manejo, conjugando a questão do lixo marinho na ilha do Arvoredo e na RBMA com a prevenção/minimização da geração de lixo pelas cidades costeiras é urgente. Também são eminentes atividades de Educação Ambiental junto às populações costeiras e, principalmente, embarcações de pesca e turismo que atuam na região, para que haja uma efetiva mudança de atitude em relação à contaminação dos ambientes marinhos por lixo.

Oceanógrafo, Mestre em Ecologia, pesquisador do Laboratório de Oceanografia Geológica – FURG.
E-mail: oceaam@yahoo.com.br
*Juliana Ivar do Sul é coordenadora Científica Projeto Lixo Marinho – Associação Praia Local Lixo Global
E-mail: juliana.sul@globalgarbage.org
Esta coluna é escrita mensalmente por especialistas que estudam o tema lixo marinho em diferentes estados brasileiros.
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