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Há pouco tempo, navegando pela internet, li na Sala de Imprensa do site do Ministério da Ciência e Tecnologia (MTC) uma interessante matéria do agrônomo e PhD em Ciências do Solo, Dr. Carlos Ernesto Schaefer, professor da Universidade Federal de Viçosa (UFV). O Professor Carlos abordou o assunto de sua matéria na 62ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que foi realizada no último mês de julho em Natal (RN). Em seu texto intitulado “Clima e dinâmica dos oceanos afeta ecossistemas de ilhas brasileiras e da Antártida”, o Professor Carlos relaciona algumas mudanças que estão acontecendo na Ilha de Trindade, localizada a 1.200km de Vitória (ES) (Figura 1) e no ecossistema Antártico, no pólo Sul (Figura 2). Estas mudanças, relacionadas principalmente às alterações climáticas globais, vem aproximando estes dois ambientes que a primeira vista parecem ser tão diferentes. Peço licença ao Professor Carlos e convido o leitor do Portal EcoD a entender o que os resultados dos estudos liderados pelo Professor Carlos e o lixo marinho tem em comum.
Ao iniciar sua matéria, o Professor Carlos comenta que espécies de plantas pertencentes a estes dois ecossistemas viajaram longas distância para colonizá-los. Assim como as plantas, plásticos flutuantes viajam ao redor do globo, percorrendo grandes distâncias e colonizando novos ambientes onde não existem fontes óbvias de lixo (populações humanas e lixões, por exemplo). Na Antártica, a contaminação por plásticos é um problema muito relevante. As principais fontes são as atividades de pesca no Oceano Austral, mas é provável que plásticos originados em baixas latitudes (onde existem grandes concentrações de pessoas) atinjam a Península Antártica e o continente, atravessando a Corrente Circumpolar Antártica*.

Figura 1: (Esquerda) Localização aproximada da Ilha de Trindade (20°S, 29°W), representada no mapa pela estrela vermelha. Fonte: Google Earth. (Direita) Lixo marinho encontrado na Ilha de Trindade, destacando-se fragmentos plásticos coloridos (acima) e um pneu (abaixo)/Fotos de Danielle Blanc da Secretaria de Biodiversidade e Florestas do Ministério do Meio Ambiente (MMA)
O Professor Carlos continua dizendo que o degelo provocado pelo aquecimento global vem aumentando a disponibilidade de água no solo e proporcionando a expansão de espécies de gramíneas, briófitas e líquens, que atualmente ocupam áreas onde não estavam presentes no passado. O aquecimento global é resultado do crescimento industrial desenfreado que ocorreu (e ainda ocorre) nas últimas décadas. Este crescimento levou o homem a produzir, consumir e descartar uma infinidade de objetos plásticos, que hoje fazem parte do nosso dia-a-dia. Assim, se mais plásticos são produzidos e descartados, maior a possibilidade destes plásticos colonizarem novas áreas do globo e maior a possibilidade de interação dos plásticos com a biota marinha.

Figura 2: (Esquerda) O continente Antártico, no pólo Sul, e a Península Antártica que se estende até aproximadamente 63°S. (Direita) Lixo marinho em uma ilha Sub-Antártica (acima). Foto de David K. A. Barnes, do British Antarctic Survey, Inglaterra. Lobo marinho enredado em rede de pesca/Foto: Comission for the Conservation of the Antarctic Marine Living Resources (CCAMLR)
Como abordado pelo Professor Carlos, ecossistemas isolados como as ilhas oceânicas e a Antártica são extremamente frágeis e dependentes do equilíbrio ecológico marinho. Assim, pequenas mudanças podem colocar em risco à sobrevivência diversas espécies. Com o lixo marinho é a mesma coisa! Diferente de outros tipos de poluição marinha, como metais ou óleo, o plástico não ocorre naturalmente no ambiente. Ou seja, todo lixo tem origem antrópica. A ocorrência do lixo nestas áreas pode provocar efeitos letais e/ou sub-letais em espécies que não ocorrem em outros lugares do planeta (que os cientistas denominam de espécies endêmicas), podendo, em casos extremos, levar a extinção destas espécies! E o aquecimento global? Bem, o aquecimento das temperaturas médias dos oceanos pode causar pequenas mudanças (como também colocado pelo Professor Carlos) no comportamento das correntes marinhas, levando o lixo que nós produzimos a lugares onde ele ainda não havia chegado.
O Professor Carlos explica a seguir sobre a importância das aves marinhas na dispersão de espécies de plantas e de nutrientes em ecossistemas como a Ilha de Trindade e a Antártica. Estas aves fazem grandes migrações transequatoriais, levando consigo sementes e alimentos que são inseridos neste ambientes. Isso também ocorre com o lixo. Albatrozes e petréis que nidificam na Antártica e em ilhas Sub-Antárticas viajam até o hemisfério norte para se alimentar, trazendo para seus filhotes o lixo ingerido juntamente com o alimento. Fragmentos plásticos, esférulas plásticas e todo tipo de lixo também são encontrados próximos aos ninhos, aumentando o risco de contaminação dos filhotes.
Para concluir, o Professor Carlos considera que a Antártica e as ilhas oceânicas são verdadeiros laboratórios naturais para estudos sobre colonização e adaptação de novas espécies de plantas e animais. Da mesma forma, estes ambientes devem ser (imediatamente) estudados em relação à poluição por lixo marinho, sendo também laboratórios para estudos de fontes baseadas no mar, transporte de poluentes orgânicos persistentes (POPs) adsorvidos em esférulas e fragmentos plásticos, interações e consequências para a biota marinha residente e visitante, entre outros aspectos.
* A Corrente Circumpolar Antártica é uma corrente marinha que flui para leste, circundando o continente Antártico a aproximadamente 60°S.
Para ver a matéria do Dr. Carlos Schaefer, professor da Universidade Federal de Viçosa (UFV) na íntegra acesse o site do MTC.
Coordenadora Científica do Projeto Lixo Marinho – Associação Praia Local Lixo Global
E-mail: juliana.sul@globalgarbage.org
Esta coluna é escrita mensalmente por especialistas que estudam o tema lixo marinho em diferentes estados brasileiros.
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