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Lixo marinho: um alimento perigoso
 
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Este mês, na coluna sobre Lixo Marinho da EcoD, conversei com a oceanógrafa Flávia Guebert, que estuda aspectos da ecologia e alimentação de tartarugas marinhas no litoral do Paraná e, atualmente, no litoral de Pernambuco.
Conheça um pouco do trabalho de Flávia e veja a lição que as tartarugas marinhas, “sentinelas” das mudanças que ocorrem no ambiente marinho, tem a nos ensinar.

Juliana Ivar do Sul*


O crescimento socioeconômico e o desenvolvimento das populações humanas não têm sido acompanhados por soluções práticas e efetivas que diminuam os impactos ao meio ambiente. Todos nós já estamos cansados de ouvir falar sobre as montanhas de lixo acumulado em lixões; a contaminação dos lençóis freáticos; a destruição das matas nativas para produção de cana-de-açúcar, soja, criação de gado; a sobrepesca, entre outros. As soluções têm surgido, mas em uma velocidade muito menor que os problemas.

Os oceanos, organismos marinhos e as próprias comunidades ribeirinhas e pesqueiras têm sentido tais efeitos, que não podem ser atribuídos às mudanças climáticas ou fatores naturais. Vou comentar mais precisamente de um grupo
animal um pouco antiquado para os dias de hoje, mas que resiste bravamente à modernidade da era dos recicláveis: as tartarugas marinhas.

As tartarugas marinhas, assim como outros grupos de animais marinhos, integram o topo da cadeia trófica dos ecossistemas marinhos e refletem variações ecológicas espaciais e temporais, o que as tornam boas candidatas a “sentinelas” das mudanças no ambiente marinho.

Atualmente, inúmeras ameaças às tartarugas marinhas têm sido identificadas, destacando-se a interação com o lixo. Estudos em todo mundo apontam para altas taxas de ingestão de lixo marinho, o que em minha opinião, não
decorre da falta de alimento orgânico, mas sim na grande disponibilidade de lixo no mar. Como conseqüência, as tartarugas não conseguem digerir essa estranha forma de alimento, que ocupa espaço no trato digestório e reduz a eficiência na alimentação, gerando ao animal a falsa sensação de satisfação. Em longo prazo (2 a 3 meses) os animais se tornam anêmicos, e a persistência do lixo marinho no intestino pode ainda produzir fecalomas, uma composição sólida difícil de ser expelida pelo intestino. 

E essa trajetória não termina por aí. Quando o lixo é ingerido, as bactérias responsáveis pela digestão não reconhecem esse corpo estranho e, em uma tentativa de digerí-lo, produzem gases que ficam presos no intestino. O resultado são animais anêmicos, de locomoção lenta no ambiente marinho, e com flutuabilidade aparente. Nesse estágio de debilidade as tartarugas podem ser capturadas em redes de pesca com mais facilida de, ou mesmo serem atingidas por embarcações de pequeno ou médio porte, pois não tem mobilidade suficiente para desviar ou afundar.

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Tartaruga marinha encontrada viva, mas com a carapaça fraturada devido a colisão com embarcações. Em cativeiro, este animal expeliu mais de 20 fragmentos de lixo durante a reabilitação/Foto: Flávia Guebert

A presença do lixo no mar pode afetar a movimentação de tartarugas marinhas em terra, quando as fêmeas retornam ao local de seu nascimento para desovar (Figura 2). No mar, o lixo também pode impedir a movimentação
de tartarugas e de vários outros grupos como tubarões, focas, leões, lobos e aves marinhas, um tipo de impacto conhecido pelos cientistas de enredamento. Um exemplo muito comum são as redes de pesca feitas de nylon, que quando perdidas no ambiente marinho são chamadas de “redes fantasmas”, podendo aprisionar animais marinhos mesmo após vários anos neste ambiente (Figura 3).

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Figura 2: A presença do lixo marinho nas praias pode afetar a até mesmo impedir a chagada e permanência das fêmeas no momento da desova/Foto: Flávia Guebert

Uma vez enroscadas em cordas, redes de pesca ou embalagens plásticas, as tartarugas marinhas, assim como outros animais marinhos, têm seu ciclo de vida interrompido na reprodução, movimentação, alimentação e/ou migração, entre outros. Em geral a morte é lenta, sendo resultado de fatores indiretos como a colisão com embarcações, inanição ou predação por outros animais.

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Figura 3: Tartaruga marinha encontrada morta com redes de pesca enredadas no corpo/Foto: Flávia Guebert

O Brasil, assim como vários outros países, é signatário da MARPOL, uma Convenção Internacional que busca a prevenção da poluição marinha. No entanto, grandes quantidades de lixo têm sido descartadas sem nenhuma restrição por navios, pescadores e turistas. Assim, cada vez detectamos mais mudanças negativas no ambiente marinho, e as tartarugas-sentinelas não param de nos mandar avisos sobre uma simples responsabilidade: cuidar do nosso próprio lixo!

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