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Para uma cidade que tem como símbolo um brasão cujo lema em latim significa “Não sou conduzido, conduzo” (Non Dvcor Dvco), não surpreende o fato de seus cidadãos perpetuarem diariamente um ritual de paciência no trânsito. A população de São Paulo parece orgulhar-se dos seis milhões de veículos que circulam diariamente. O número de carros está diretamente relacionado ao crescimento da cidade e São Paulo não pode parar de crescer. No entanto, indiferentes, os contribuintes preferem deslocar-se para o trabalho sozinhos. Se fossem conduzidos, não só contribuiriam para a redução do tráfego caótico como também para a economia brasileira e para a redução das emissões de CO2.
Enquanto os veículos queimam combustível no trânsito, fatalmente contribuímos para que 32,5 milhões de toneladas de CO2 sejam lançadas na atmosfera. E, pasme, 40% desse volume virão dos carros. Sim, despejados no mesmo ar que você, sua família e o presidente da República respiram. Há muito tempo o trânsito deixou de ser um problema apenas dos órgãos públicos. É necessário o engajamento de todas as pessoas, físicas e principalmente jurídicas, para reverter esse quadro.

Se você trabalha na capital de São Paulo e é corajoso o bastante para sair com o seu carro entre seis horas da tarde e oito da noite, faça um teste: olhe ao redor e veja quantas pessoas estão como você, paradas num trânsito infernal, completamente sozinhas. Basta uma espiada para conferir os dados que a Cetesb divulgou na campanha Carona Legal de 2008. São mais de seis milhões de automóveis registrados na cidade, 8,5 milhões circulam diariamente na Grande São Paulo e 10 milhões lotam as principais ruas e avenidas no horário de pico, o que resulta em 200 quilômetros de engarrafamento e, em alguns casos, quase três horas de lentidão.
Agora faça um outro teste, imagine uma avenida como a Doutor Luis Carlos Berrini, na capital paulista, com três grandes shoppings, grandes sedes de empresas como Nestlé, Vivo, Hewlett Packard, Amanco, TV Globo e Microsoft, centenas de escritórios e casas. Imagine milhares de colaboradores destas empresas se deslocando em seus carros particulares, todos ao mesmo tempo e sozinhos. Imagine também que todos os dias existem centenas de pequenas e médias empresas de mudança para as mediações desta avenida e o impacto desta mudança vai atingir você do outro lado da cidade, ou de qualquer lugar do Brasil, do Oiapoque ao Chuí.
“Mobilidade Sustentável é a habilidade de satisfazer às necessidades de deslocamento de uma sociedade sem sacrificar os valores sócio-ambientais essenciais para a nossa vida hoje e no futuro.”
Hoje já não é mais possível construir um novo edifício na cidade ou estar em um local com o trânsito saturado sem se preocupar com a mobilidade sustentável. Se todas as empresas com mais de 100 colaboradores na região da Berrini desenvolvessem um projeto de mobilidade sustentável, a situação melhoraria. Cada empresa poderia realizar um mapeamento dos deslocamentos de seus colaboradores e, a partir deste conhecimento, traçar metas de redução de CO2 e de tempo de deslocamento, além de adotar algumas medidas, tais como adoção de horários flexíveis, meio de transportes alternativos, diálogo com as autoridades de trânsito e transportes.
Para isso acontecer é importante que o board das empresas esteja 100% engajado e alinhado com os propósitos da mobilidade sustentável e que o projeto de mobilidade faça parte da estratégia da companhia. Com esta atitude, poderíamos ter uma cidade melhor, mais sustentável. Já está provado que os projetos de mobilidade sustentável tornam o transporte público mais eficiente. Já está provado que os projetos de mobilidade corporativa diminuem o tempo de deslocamento dos veículos e, consequentemente, as emissões de gases poluentes.
Para isso ser uma realidade no Brasil será necessário engajar os empresários, as autoridades de trânsito e transportes, os colaboradores na cultura de mobilidade sustentável, criar campanhas de conscientização interna, prover benefícios exclusivos para aqueles que adotarem projetos sustentáveis, assim como acontece nas maiores cidades do mundo. Está mais do que na hora, de cidadãos brasileiros, empresários, gestores corporativos e consumidores deixarem de ser apenas condutores de veículos para se tornarem condutores de uma nova mentalidade empresarial. Vamos tirar os projetos da imaginação.
Diretor da Green Mobility Brazil.
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