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Lincoln Paiva
Mobilidade Sustentável e a Economia de Baixo Carbono
Por Lincoln Paiva

Parece que agora, com a crise econômica e com a nomeação do prêmio Nobel de Física Steven Chu para a pasta de Energia nos Estados Unidos, finalmente o mundo corporativo começou a dar mais importância para as questões relacionadas às emissões de carbono. Chu é especialista em economia e um cientista brilhante que tem trabalhado no estudo de novas formas de energia limpa. As emissões de carbono geradas pela cadeia produtiva, que envolve também os deslocamentos de trabalhadores e a logística de distribuição de mercadorias, têm impacto direto na economia mundial.

O problema vem sendo discutido pela comunidade ambiental há muito tempo, mas o debate tomou força depois da divulgação do Relatório Stern, em 2006. Trata-se de um documento coordenado pelo economista britânico Nicholas Stern que relata as perdas econômicas dos países com o aumento gradual da temperatura. Stern concluiu que, para frear os impactos econômicos do carbono, o mundo deverá gastar cerca de 1% da riqueza produzida por ano e seguir uma meta de redução de emissões em 50% até 2050.

Isso significa que o mundo terá de reduzir os atuais 40 para 20 gigatoneladas de CO2 por ano, ou seja, duas toneladas per capita. Para se ter uma idéia, se um motorista que percorre um trajeto de 20 km por dia, num carro 1.000 cc, ele emite cerca de meia tonelada de CO2 anualmente na atmosfera. Stern afirma que mesmo do ponto de vista financeiro, é mais vantajoso agir agora que deixar para resolver o problema mais tarde. A conta da indiferença reduziria de 5% a 20% da renda de cada país, todos os anos, com possibilidade de crescer cada vez mais. 

Hoje o consenso é geral entre economistas, cientistas e ambientalistas: o mundo precisa descarbonizar sua economia. Descarbonizar a economia significa produzir empresas mais conscientes do ponto de vista socioambiental, evitar desperdício, utilizar mais energia limpa. Com negócios ecoeficientes e um consumo consciente, será possível preservar recursos naturais e manter uma qualidade de vida melhor nas cidades. O que também trará impactos positivos no trânsito e no tempo de deslocamento.

Esse processo terá de passar pela mobilidade urbana sustentável. Além disso, diminuir a poluição nas cidades aumenta a expectativa de vida, segundo um recente estudo publicado no "New England Journal of Medicine". No Brasil, pesquisas da Universidade de São Paulo comprovam que a poluição mata cerca de 19 pessoas por dia na capital paulista. No mundo globalizado, não será mais possível a existência de empresas míopes em relação às suas emissões e ao impacto que elas causam para a economia do planeta e a vida nas cidades. 

A atual crise econômica levará as empresas a repensarem seu papel. A elaboração de relatórios de sustentabilidade é uma ferramenta importante para se avaliar o nível de emissões– valoriza as ações corporativas diante de investidores que preferem empresas mais conscientes, como as listadas no Dow Jones Sustainability Indexes. Mas elas deverão ir além e comprometer-se em reduzir os impactos de suas emissões com programas consistentes, monitorando constantemente os indicadores de redução. Também é necessário que as empresas realizem esforços para reduzir os impactos das emissões, com programas de compensação de carbono e outras iniciativas. Ainda assim, não basta. 

Hoje a única forma de averiguar o total de emissões de uma empresa é checar os inventários reportados no balanço de sustentabilidade. Tudo certo se não fosse por um único detalhe: a maioria das empresas não reporta as emissões de forma distinta, ou seja, as emissões oriundas do processo produtivo, das emissões dos deslocamentos, das emissões dos trabalhadores (veículos corporativos e privados, locação de veículos, táxis, helicópteros e outros meios de transporte) e da logística de distribuição de produtos e serviços. E quando notificam de forma distinta, não priorizam as metas de redução e seus impactos distintamente. 

Esse detalhe faz toda a diferença, pois a diminuição das emissões de CO2 provenientes dos trabalhadores também reduz o trânsito nas cidades. A chanceler alemã Angela Merck já experimentou os engarrafamentos de São Paulo. Para mudar esta realidade, as empresas precisam reportar as emissões referentes aos deslocamentos de seus trabalhadores, assim como as emissões relacionadas ao processo de distribuição de mercadorias. Mais que reportar, será necessário criar um plano de mobilidade sustentável, pois medidas de compensação não resolverão a questão do impacto dos deslocamentos no trânsito da cidade e os problemas decorrentes disso, inclusive, sociais e econômicos. Isso significa reduzir a quantidade de carros circulando nas ruas das cidades, formas alternativas de deslocamentos, horários flexíveis e adoção de combustíveis mais verdes. 

As emissões decorrentes dos deslocamentos dos trabalhadores e da logística de distribuição impactam diretamente na vida das cidades, nos congestionamentos, nas horas paradas no trânsito, que intensificam ainda mais a poluição, o desperdício de combustível, os problemas com saúde pública, a segurança e a economia.

Pensando nisso, o Projeto MelhorAr de Mobilidade Sustentável desenvolveu um plano de mobilidade para que as empresas possam mapear os deslocamentos de seus funcionários e sugerir formas alternativas de deslocamentos para diminuir os impactos negativos para o meio ambiente e para as cidades. O projeto também tem um sistema para monitorar os indicadores de mobilidade, tais como controle de emissões de gases poluentes pela metodologia GHG Protocol, de tempo dos deslocamentos de funcionários e adoção de programas alternativos de transportes e a utilização de combustíveis mais limpos. 

No Estado de Washington (EUA), onde o governo norte-americano implantou uma lei denominada CTR-Law, os índices de trânsito despencaram. Mais de mil empresas participam do programa de mobilidade e mais de 500 mil trabalhadores estão engajados nos projetos, resultando na redução de 18% do tempo de deslocamento entre casa e trabalho, uma economia de milhares de litros de combustível e milhões de dólares. Toneladas de CO2 deixaram de ser emitidas na atmosfera.

O governo percebeu que, quando as pessoas procuram meios alternativos de locomoção, o transporte público fica mais eficiente, porque muitas pessoas passam a usar bicicleta e carona compartilhada (Carpool). Isso dá maior acessibilidade das pessoas em relação ao transporte e uma mobilidade socialmente mais justa. 

No Brasil, por falta de uma lei mais rigorosa em relação a essas questões, poucas empresas percebem a importância dos projetos de mobilidade sustentável, o que contribuiria, e muito, para redução dos 200 km diários de congestionamento das ruas das cidades e para economia do País.


Lincoln Paiva

Diretor da Green Mobility Brazil.

Separador Item
Item NON DVCOR DVCO
Item Um “New Deal” para a Mobilidade Sustentável
Item Mobilidade socialmente justa e ambientalmente responsável
Item Os 10 passos para ser sustentável
Item Exemplos sustentáveis que podem dar certo
Item Será que as empresas brasileiras estão preparadas para uma economia de baixo carbono?
Item Redução das emissões de CO2 X Redução do IPI dos automóveis
Item Home Office como alternativa para mobilidade sustentável
Item Trânsito, uma verdade mais do que inconveniente
Item Estamos maduros para uma economia verde?
Item “Não quero perder meu carro”
Item Cadê a fumaça preta nos relatórios das emissões veiculares?
Item Você sabe o que é Integração Modal?
Item Classe C vai gastar mais para alimentar o carro do que para alimentar a família
Item Quer saber o que é Mobilidade Sustentável? Pergunte para o seu filho.
Item Por um Pacto de Mobilidade Urbana Sustentável
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