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Lincoln Paiva
Mobilidade socialmente justa e ambientalmente responsável
Por Lincoln Paiva

Muito se discute a respeito dos problemas da poluição e do trânsito em grandes cidades como São Paulo, com 11 milhões de habitantes e cerca de seis milhões de automóveis, de acordo com o Detran-SP. O cenário é típico: enquanto algumas pessoas se deslocam de ônibus, metrô e outros meios alternativos, outras tantas utilizam o carro para se locomover de forma individual. Cada carro, no entanto, ocupa cerca de 10m2 de área para acomodar-se num estacionamento. Imagine essa equação para caber os seis milhões de carros!

Se seguirmos a lógica de alguns especialistas, que defendem que a economia mundial tende a dobrar de tamanho a cada 14 anos, no futuro haverá mais carros circulando nas cidades à medida que cresce o ritmo da produção e o poder aquisitivo da população. A capital paulista, em pouco tempo, entrará em colapso por falta de espaço para circulação de pessoas, isso se continuarmos optando pelo deslocamento individual.

Uma das soluções para esse cenário caótico é a adoção de medidas que proporcionem a mudança de hábito na maneira como nos deslocamos pela cidade. É importante ter consciência de que o carro sozinho não é o vilão, mas a forma como é utilizado é que o transforma como tal.

Fatores como falta de segurança e a má qualidade do transporte público são empecilhos para a maior parte dos motoristas, que se recusam a abrir mão do conforto do carro. Mesmo assim, cabe a cada um de nós fazer a opção por uma mobilidade socialmente justa, e uma atitude ambientalmente mais responsável.

A prefeitura de São Paulo aprovou recentemente um projeto para mitigação de gases de efeito estufa que incorpora algumas ações de restrição de automóveis tais como a proibição da circulação de carros em determinados locais e horários, e construção de pistas exclusivas para caronistas, mas ainda sem prazo para execução. Entretanto, nada funcionará sem a conscientização e o engajamento da população nestas ações.

As empresas deveriam ser encorajadas pelos governos a desenvolverem planos de mobilidade para seus colaboradores, e assim atenuar os congestionamentos em horários de pico. Sem benefícios e encorajamento das empresas privadas no processo de motivação de seus colaboradores será muito difícil alguma coisa acontecer.

Este ano, o Banco Mundial apoiou uma pesquisa sobre as emissões de GEE (Gases de Efeito Estufa) na América Latina, e pela primeira vez abordou a questão dos transportes, destacando o crescimento exagerado dos deslocamentos individuais por meio de automóveis, em cidades como São Paulo. O relatório aponta que para atingir as metas de redução de CO2 até 2020 será necessário que os países em desenvolvimento participem com propostas para mitigação de GEE, que até então não estava previsto no protocolo de Kyoto. Os países que não seguirem as metas estabelecidas poderão sofrer barreiras para exportação de produtos ou para conseguir financiamentos de infra-estrutura pelo Banco Mundial.

É importante saber que pagamos um custo altíssimo pela falta de engajamento em projetos de mobilidade sustentável. A cidade de São Paulo gasta, por ano, US$ 208 milhões com os efeitos da poluição atmosférica, segundo estudo da universidade de Harvard, que também mostra que quem vive em cidades poluídas tem a vida abreviada em 2,5 anos.

Os custos indiretos da poluição, trânsito, doenças e faltas no trabalho afetam a produção e com isso também reduz arrecadação de impostos. A poluição gerada pelo trânsito, entretanto, não é boa pra ninguém.
 


Lincoln Paiva

Diretor da Green Mobility Brazil.

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