| As obras de mobilidade urbana têm avançado em sua cidade? | |
Em 1948 a cidade Donora, no Estado da Pennsylvania nos EUA, com cerca de 14 mil habitantes, foi palco de um fenômeno chamado “Smog”, era um prenúncio claro de um futuro nada promissor da poluição provocada pelo acúmulo dos automóveis nas cidades, depois daquele dia, as cidades nunca mais seriam as mesmas. Naquele mesmo ano, 20 pessoas morreram em decorrência do Smog e 50% da população foram parar nos hospitais com problemas respiratórios . Sessenta anos mais tarde, o incidente foi descrito pelo jornal The New York Times como "um dos piores desastres da poluição atmosférica na história dos Estado Unidos”.
O smog é uma camada de névoa escura altamente tóxica formada por finas partículas de poluição e costuma aparecer como uma névoa acinzentada que atrapalha a visibilidade no período do inverno, especialmente em dias de inversão térmica. Mas que não tem aparecido nos últimos relatórios ambientais apresentados pelo governo.
Recentemente o Ministério do Meio Ambiente divulgou o tão esperado inventário das emissões veiculares, ele aponta o Brasil como um dos únicos países do mundo sob o qual o volume de deslocamentos por carro é superior aos deslocamentos por transportes coletivos. O que assusta, e serve de alerta pois a tendência do consumo de automóveis vai continuar crescendo, haja visto a política de redução de IPI, a retomada da economia baseada no estímulo da compra de automóveis, o apego do brasileiro ao status proporcionado pelo carro e o total desconhecimento da população de uma cultura baseada na mobilidade sustentável, o que fará com que as indústrias automotivas continuem batendo todos os recordes de vendas seguidamente, agravando os problemas dos congestionamentos e da saúde pública que também aumentam em função das nossas escolhas.
De acordo com o Ministério de Meio Ambiente o setor de transportes coletivo foi responsável por 2% das emissões de monóxido de carbono (CO), enquanto os veículos leves foram responsáveis por 83% das emissões do mesmo poluente. O CO é um gás incolor e inodoro, resultante da queima incompleta de combustíveis, principalmente dos veículos leves. Prejudica a oxigenação do sangue e pode provocar, dependendo da exposição, desconforto; náuseas; dor de cabeça; tontura; alterações nas funções motoras e; problemas cardiovasculares. Mas há um fato extremamente grave no relatório que passa despercebido que é a falta dos resultados do volume de SOX , materiais particulados e hidrocarbonetos emitidos, mas o importante é que não existem parâmetros comparativos.
O problema não é só a quantidade de carros vendidos, mas uma política que incentiva o uso do carro no nosso cotidiano, tais como as recentes entregas de trechos viários, pontes e novas estradas que tendem a surtir efeito por alguns meses, a falta de interconexão modal (conexão entre os diversos meios de transportes). O incentivo ao uso do carro não só é insustentável sob o ponto de vista da mobilidade das cidades, como também é responsável por milhares de mortes todos os anos.
Segundo dados divulgados no inventário de qualidade do ar do governo paulista, no ano de 2008, gastou-se no estado de São Paulo em internações realizadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), para as faixas etárias de 0 a 9 anos e de 60 anos ou mais, um montante de R$ 132.769.438,85.
E não é só isso, o relatório aponta que as “concentrações de poluentes atmosféricos acarretam afecções agudas e crônicas no trato respiratório” e que “a maior incidência de patologias, tais como asma e bronquite, está associada às variações das concentrações de vários poluentes atmosféricos” e o pior, “a mortalidade por patologias do sistema respiratório apresenta uma forte associação com a poluição atmosférica”.
A organização Mundial da Saúde (OMS) diz que a exposição a estes gases causa problemas de saúde como irritação nos olhos e até mesmo, morte. Divulgar os índices de poluição local não é apenas uma questão política mas uma questão de vida e morte sobre tudo para quem tem problemas respiratórios e as pessoas que estão mais vulneráveis nas ruas e pontos de ônibus da cidade.
Qual a concentração de SOX nos corredores de ônibus das nossas cidades? O relatório do Ministério de Meio Ambiente do Governo Brasileiro sequer divulgou o crescimento deste poluente atmosférico. O dióxido de enxofre (SO2) é formado pela queima de combustíveis que contêm enxofre como óleo diesel, óleos industriais e carvão. Ele é o principal componente da chuva ácida e provoca problemas respiratórios, com um agravante: o diesel brasileiro é um dos mais venenosos do mundo.
Qual o limite mínimo de exposição ao SO2 que uma pessoa pode ficar exposta? Cinco minutos? Vinte e quatro horas? Ninguém sabe ou não é interessante informar. Pena de você que depende dessa informação para sobreviver na cidade de São Paulo ou nas grandes cidades brasileiras, o problema será o mesmo, é como se vivêssemos todos os dias numa roleta russa.
Segundo o relatório do governo paulista em 2007, último disponível na base de dados da Fundação SEADE, as mortes por doenças do aparelho respiratório atingiram um total de 22.562 pessoas, sendo 21.807 na faixa etária de 60 anos ou mais e 755 na faixa etária de menos de 1 ano a 9 anos. Na faixa etária mais alta, nota-se uma alta incidência de mortalidade nos meses de maio, junho, julho e agosto, período em que se inicia o inverno e a dispersão de poluentes se torna mais crítica. Para o ano de 2008 os dados disponíveis são os do DATA–SUS, do Ministério da Saúde. Segundo o relatório, o número de óbitos atingiu um total de 23.650, sendo 23.029 na faixa etária de 60 anos ou mais e 621 na faixa etária de menos de 1 ano a 9 ano.
Não basta divulgar índices sobre os quais ninguém sabe o significado. É mais do que necessário a fixação de normas para proteger a saúde pública e o bem-estar das pessoas. Sabe-se que o Conama estabeleceu normas de emissões veiculares de gases poluentes que ainda são muito mais poluentes do que as normas européias. A inspeção veicular realizado pela prefeitura dá conta de que dois milhões de carros foram inspecionados, mas diminuir as emissões dos carros e ao mesmo tempo aumentar a quantidade de carros circulantes não dá na mesma? Obviamente seria muito pior não ter a tal inspeção, mas é óbvio que precisamos de uma política de restrição de carros urgentemente nas cidades. Caso contrário, um efeito irá anular o outro.
Ainda assim precisamos de respostas que não lemos nos relatórios de emissões, por exemplo, até que ponto a exposição a SOX e outros gases poluentes contribuem para efeitos na saúde além do sistemas respiratório e cardiovascular? Ou qual é a natureza dos efeitos na saúde após a nossa exposição a curto prazo a multipoluentes provocada pelo acumulo de carros?
Até que ponto a exposição prolongada ao SOx pode promover o desenvolvimento da asma ou outras doenças crônicas do pulmão e doenças cardiovasculares? Qual é a relação entre a exposição prolongada ao SOx e encurtamento da vida através de doenças relacionadas a poluição?
Quais são os padrões de exposição SOx mensais e anuais que promovem efeitos potencialmente prejudiciais a saúde?
Que informações estão disponíveis sobre os impactos na saúde da diminuição dos níveis de SOx e outros poluentes no ambiente urbano?
Estão sendo identificadas as pessoas sensíveis a poluição? O que estão sendo feitos para prevenir estes problemas em datas sazonais, como o inverno? O que estão sendo feitos para prevenir as pessoas vulneráveis aos problemas provocados pela poluição? Tais como os trabalhadores, esportistas, ciclistas, estudantes pedestres em geral que transitam pelas ruas da cidade?
Quais os efeitos destes poluentes em adultos saudáveis?
Foram identificados os locais e existe uma avaliação do número médio de concentrações máximas de curto prazo? Estão sendo desenvolvidos critérios para a seleção de áreas adequadas para a análise, possivelmente com base em comparações estatísticas das concentrações ambiente e potencial de influência sobre as concentrações ambientes de fontes locais de SO2, como por exemplo, a presença de usinas de energia movidas a carvão, pontos de ônibus e pólos geradores de tráfego?
Diretor da Green Mobility Brazil.
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