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As obras de mobilidade urbana têm avançado em sua cidade?
Sim. Elas têm sido feitas dentro do cronograma para a Copa.
Sim. Têm sido construídas de acordo com a necessidade local.
Algumas sim. Mas não todas que são necessárias.
Não. Só as obras dos estádios avançam.



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Ladislau Dowbor
Grátis, o futuro dos preços
Por Ladislau Dowbor

Chris Anderson é autor muito conhecido por sua excelente obra anterior, The Long Tail (no brasil, A Longa Cauda) em que mostrou que as novas tecnologias de informação e comunicação mudavam as regras do marketing, ao possibilitar manter em estoque virtual inúmeras obras criativas muito depois de se esgotar o surto de vendas do lançamento. Apesar de pensarem mais nos Best Sellers, os intermediários do processo precisariam passar a pensar em Long Sellers. E para os usuários, isto siginfica ter acesso não só ao que está no Blockbuster, mas ao conjunto de iniciativas da chamada economia criativa, revitalizando os nichos de demanda diferenciada.

Anderson escreve muito “pé no chão”, digamos assim, com uma visão pragmática, recorrendo muito a consultas com os que estão abrindo novos caminhos. Na presente obra, ele sistematiza os argumentos em torno da economia da gratuidade. Não por alguma razão ideológica ou idealista: mostra bem que se trata simplesmente de bom senso econômico.

Os jovens têm muito tempo e pouco dinheiro. Os mais velhos têm pouco tempo e bastante mais dinheiro. Os primeiros não se incomodam em rodear as barreiras artificiais com que as corporações mais ou menos oligopolizadas tentam impedir o acesso gratuito, e na realidade o conseguem rapidamente. As corporações entram numa corrida inútil de proibições, tecnologias de travamento e até de apelos patéticos na mídia, do tipo “seja ético”, como se formar oligopólios e cartéis fosse ético. Quando a reprodução é virtualmente gratuita, ou tende para isto, querer cobrar se torna mais caro do que assegurar o acesso gratuito e encontrar outras formas de equilibrar as contas.

Os mais velhos têm pouco tempo e mais dinheiro. Em geral vão pagar por uma versão mais sofisticada do mesmo produto gratuito, pois ganham em competência e ritmo de produção, e muitas empresas descobriram que assegurar gratuidade geral, e cobrar por serviços avançados e especializados referentes ao mesmo produto permite perfeitamente sobreviver. E entrar em guerra com a imensa maioria, e em particular com a nova geração, não é o ideal para uma empresa. O próprio Bill Gates, na citação trazida por Anderson, se refere a piratas dos seus produtos com certa diplomacia: “se estão roubando, nós queremos que eles roubem os nossos” (“as long as they’re goint to steal it, we want them to steal ours”.(102) Até ali já chegou a luz das novas regras do jogo, na nova economia.

Chris Anderson parte de uma clara distinção, entre a economia de bens materiais (os átomos), e a economia da criatividade (os bits). O que gera desacertos é tentar aplicar as regras dos bens materiais, do século XX fabril, à economia da criatividade. O bem material, quando apropriado por alguém, deixa de ser propriedade de outro: é um “bem rival”, no jargão da economia. Um bem criativo não é apropriado, é compartilhado, e quem o tinha no início não o perde. Isto não significa que o valor econômico do bem deixa de existir, e sim que a natureza da transação e a incidência da remuneração mudam. São novas regras. Achar bandidos de um lado ou de outro não resolve.

Quando a internet permite a conectividade quase gratuita de inúmeros pequenos comerciantes que passam a racionalizar os seus negócios, é óbvio que as empresas telefônicas – em particular com o que cobram no Brasil – ficam indignadas, pois os seus lucros se baseiam em proibir o livre acesso, de forma a que seja obrigatório passar por elas. É compreensível neste sentido, do ponto de vista delas, a guerra que travam contra a ampliação do acesso. Mas por outro lado, se considerarmos que o acesso à banda larga torna mais produtivos zilhões de atividades, precisamos pesar o que perdem alguns oligopólios e o que ganha a sociedade. Manter as coisas mais caras para privilegiar uns poucos não tem muito sentido. Interessa, a prazo, a produtividade sistêmica mais elevada da sociedade. No caso da abertura do acesso, avalia Anderson, “os ganhadores são muito mais numerosos do que os perdedores. A gratuidade desarticula, sem dúvida, mas tende a deixar os mercados mais eficientes no seu rastro”. (the winners far outnumber the loses. Free is disruptive, to be sure, but it tends to leave more efficient markets in its wake” (134) Em termos econômicos, trata-se aqui da tão mencionada destruição criativa, que de repente os oligopólios esqueceram.

O caso da Enciclopédia Britânica e da Wikipedia é neste sentido interessante: sai muito mais econômico captar o imenso capital acumulado de conhecimento da sociedade, nos mais diversos aspectos, inicialmente disperso, mas agora sistematizado. A contribuição para o nível geral de conhecimento da sociedade é imensa, os verbetes estão permanentemente atualizados (quem já comprou a Britânica sabe o peso da poeira), e as perdas de uma empresa que não soube evoluir para novas modalidades é simplesmente compreensível. Em todo caso, são incomparavelmente menores do que os ganhos sociais. Em termos de PIB, não aparece a Wikipedia, porque é gratuita e se baseia no prazer das pessoas fazerem uma coisa útil. Mas o valor-conhecimento (que o Pib não mede) é imenso. (“it’s shrinking the value we can measure (direct revenue), even as it’s hugely increasing the value we can’t (our collective knowledge)”. (130) Compensaria cobrar de cada pessoa que consulta a Wiki? Segundo Jimmy Wales, o criador, os estudos e pesquisas que o acervo permite viabilizam as contas.

É claro que “não há almoço grátis”, e Anderson repete isto várias vezes. Mas muito posto de gasolina não cobra o cafezinho e não perde com isto. Ou seja, temos de deixar um pouco de lado o histerismo ideológico que denuncia a pirataria, e pensar na lógica dos processos econômicos. A universalização do acesso gratuito à banda larga seria um escândalo? Claro que as infraestruturas e a gestão da banda larga têm custos. Mas deve-se cobrar de cada uso? A banda larga é a avenida onde trafegam os conhecimentos. São ondas eletromagnéticas, espectro que aliás é público, não foi criado por nenhuma telefônica nem pela ABERT. Por isso são concessões de uso de recurso público. O acesso livre à banda larga é tão natural como a minha livre circulação na rua. A rua também tem custos, mas travar o acesso, cobrar o meu passeio, resultaria em perda de valor social, ainda que significasse enriquecimento de alguns.

Na realidade, a dificuldade não é propriamente intelectual, e sim de postura. A economia da criatividade é nova, e toda a nossa formação, do que é econômico ou não, do que é ético ou não, prendem-se a outros tempos. Anderson neste livro simples e divertido, mas muito bem documentado, nos ajuda a fazer a transição para uma outra lógica. “Ideias, escreve o autor, não podem ser travadas para sempre”. (83)

 

Chris Anderson / Ed. Campus, São Paulo 2010
(Original inglês, Free, the future of a radical price, 2010)

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Ladislau Dowbor

Doutor em Ciências Econômicas pela Escola Central de Planejamento e Estatística de Varsóvia, professor titular da PUC de São Paulo e consultor de diversas agências das Nações Unidas.
Contatos: ladislau@dowbor.orghttp://dowbor.org  
 

Separador Item
Item Brasil: um outro patamar
Item Crise abre espaço para repensar Estado e Desenvolvimento
Item O debate sobre o PIB: estamos fazendo a conta errada
Item Produtividade sistêmica do território: um conceito essencial
Item A cruzada para negar o aquecimento global
Item Os Dez Mandamentos
Item O valor econômico do tempo livre
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