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Eduardo Athayde
O princípio do preservador-pagador
Por Eduardo Athayde

Entre 1900 e 2009, o planeta cresceu de 1,5 bilhão de habitantes para quase 7 bilhões de pessoas. Dessas, mais de 50% vivem amontoadas em poluídos centros urbanos, trabalhando para manter um modelo de desenvolvimento do qual queremos nos livrar. Hoje, em um único dia, jogamos mais carbono na atmosfera do que os nossos antepassados em cem anos, provocando alarmantes impactos nos ecossistemas que lastreiam a economia.

O Worldwatch Institute (WWI) mostra no relatório Estado do Mundo 2009 que a economia terá de inverter a curva de crescimento de emissões de gases de efeito estufa até 2020, continuando o decréscimo. Os benefícios econômicos para um caminho de baixo carbono podem chegar a US$ 2,5 trilhões por ano, tarefa hercúlea e lucrativa para uma economia que anda a passos largos, desconectados, sem regras para descarbonização.

Diante do quadro dramático do clima, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) clama por profissionais de comunicação - agências de publicidade - para adequar e ampliar a mensagem, melhor informando a sociedade. As universidades corporativas, sediadas no ambiente empresarial onde parte da riqueza é criada ou transformada, têm papel central. Investindo em inteligência nova e aplicando conhecimento para a descarbonização, evitarão prejuízos de asfixias financeiras em um mundo carbonizado.

Com pressões sem precedentes, a crise climática chega às bolsas de valores. Ancoradas na cultura econômica de crescimento infinito como medida de sucesso em um planeta finito, onde capitais concentrados ainda fluem livremente sem controle de emissões, as bolsas terão de dar a sua contribuição.

Ações podem ser propulsoras ou mitigadoras de emissões e o teor de carbono de cada ação negociada é uma medida da parcela de responsabilidade dos acionistas e seus executivos, em um mundo em aquecimento. Para serem transparentes, as ações terão de passar pelo crivo do carbon index e do dCarb index, por exemplo, indicando os níveis de carbonização e descarbonização de cada ação negociada.

Em uma economia de baixo carbono, a transparência precisa ser recalibrada, diminuindo o risco do investidor. Cerca de 700 CEOs de todo o mundo, elite do mundo corporativo, antenados nas bolsas de valores, foram recebidos pela Dinamarca - onde 25% da energia é proveniente do vento - para a Cúpula Empresarial de Mudanças Climáticas, no mês passado.

Atônitos, eles começam a entender que o mundo corporativo, integrante do planeta aquecido, teria saída para o entrelaçamento da crise financeira com a climática, buscando soluções descarbonizantes - ou seus indicadores mostrarão o crescimento da curva de falências carbonizadas.

O mercado em mutação dá margem a iniciativas inusitadas, pagando para preservar. Aproveitando o exemplo da Califórnia, que, declarando-se estrategicamente como "Estado Verde", avança nos bancos de conservação, gerando créditos negociáveis. Além disso, biomas como a Amazônia, Pantanal, mata atlântica, cerrado e caatinga, ativos ambientais, lastros da ecoeconomia que florescem globalmente, podem ser economicamente valorizados.

Únicos no mundo, além de gerar créditos negociáveis da biodiversidade para uma economia global, servem também como rotas de investimentos em preservação e descarbonização, representando um diferencial competitivo para investidores atraídos - ou empurrados - para a sustentabilidade.

Visando garantir a preservação e a soberania, o real valor de biomas como a Amazônia, por exemplo, precisa ser mensurado, apropriado e divulgado. Ajudando nessa difícil tarefa, indicadores como o Dow Jones Amazonia Stoxx podem ser criados, aproveitando a tradição de índices da família do Dow Jones Stoxx que cobrem Europa, Américas e Ásia, propiciando aos investidores acesso a informações segmentadas do mercado por região, tamanho, setor e tema, evoluindo do princípio do poluidor-pagador para o de preservador-pagador.

Créditos de carbono e de biodiversidade - negociáveis e que embutem princípios do preservador-pagador - são mecanismos que emergem da busca angustiada por soluções para a comunidade humana. Essa comunidade cresce a um ritmo acelerado de 70 milhões de novos habitantes/consumidores por ano ou uma França ao ano. Tem desafios como regular o consumismo, fomentar o equilíbrio dos ecossistemas e vencer duras batalhas contra a crise climática, lucrando mais. Esses são cenários que nortearão as articulações de um mundo em aquecimento na Conferência Mundial sobre Clima das Nações Unidas, no fim deste ano, em Copenhague.


Eduardo Athayde

Diretor do WWI-Worldwatch Institute no Brasil
E-mail: eduardo@uma.org.br

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