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Eduardo Athayde
Crise financeira e o "Carbon Index"
Por Eduardo Athayde

Quando o Banco Real (Amro/Santander) foi contemplado em Londres com o título de Banco Sustentável do Ano, em junho de 2008, executivos dos maiores bancos do mundo, presentes ao evento, não podiam imaginar que, em quatro meses, estariam mergulhados em uma das maiores crises financeiras da história.

A proposta de uma nova arquitetura financeira internacional, que inclua o respeito aos limites naturais do Planeta, foi endossada pelos países da União Européia. Enquanto o premier britânico, Gordon Brown, propõe que as maiores instituições financeiras multinacionais sejam supervisionadas por comitês internacionais; o presidente francês, Nicolas Sarkosy, pede uma nova forma de capitalismo baseada em valores que coloquem as finanças a serviço das empresas e dos cidadãos. George Soros, referência do capitalismo financeiro mundial, passou a defender soluções para mitigar o aquecimento global, apostando na redução da dependência do petróleo e na matriz energética mais limpa — descarbonizada.

Incertezas geradas pela crise direcionam mercados para lastros encontrados nos cenários da sustentabilidade. Marcos regulatórios como o Dow Jones Sustainability Index (DJSI), que estabelece indicadores sustentáveis de desempenho nas empresas; os Princípios do Equador, pelo qual os bancos signatários adotam critérios socioambientais rígidos para concessão de empréstimos e os Principles of Responsable Investments (PRI), da ONU, que cria regras sustentáveis para fundos de investimentos voluntariamente associados são novos parâmetros que impulsionam a eco-economia.

Lançado em 2006, o PRI contabiliza ativos da ordem de 15 trilhões de dólares no conjunto dos seus associados. Entende a necessidade de controle de emissões de carbono e que é preciso por preço na biodiversidade.

- Exemplos simples mostram estreitas relações entre economia e ecossistemas:

No Panamá, o desaparecimento das florestas provocou crônica falta de água no canal do país, que é equipamento indispensável ao trade e a economia internacional. Com isso, companhias de seguros e armadores financiaram um programa de reflorestamento para recuperar o canal.

No Brasil, a floresta amazônica — ainda não valorada — gera chuvas que irrigam as regiões sudeste e centro-oeste do pais, onde usinas de álcool, além de abastecer veículos, já vendem um milhão de quilowatts (potência igual à da usina nuclear de Angra 1) de energia limpa, a partir do bagaço de cana. Com a expansão do etanol as usinas brasileiras produzirão 12 milhões de quilowatts de energia renovável e, portanto, descarbonizada, na próxima década. A produção, equivalente a de uma Itaipu, revela a potência dos econegócios.

O valor dos serviços da natureza estão sendo incorporados pela eco-economia. A energia a ser aproveitada por hidrelétricas como as do Rio Madeira, na Amazônia, deriva de ciclos complexos de ecossistemas naturais que envolvem florestas, fluxo de rios, chuvas, radiação solar, ventos e regimes hídricos, lastros para empreendimentos geradores de riquezas e empregos nas comunidades locais. Barateando a energia, empreendimentos sustentáveis, descarbonizados, promovem o desenvolvimento dos Estados da região amazônica.

Nos EUA, onde as tecnologias limpas são o terceiro setor que mais recebe capital de risco, empresas que poluem zonas úmidas — protegidas por lei — são obrigadas a comprar “créditos ambientais” junto a bancos especializados. Esses créditos financiam projetos de restauração dos ambientes naturais, gerando novas rendas e empregos verdes.
Signatários dos Princípios do Equador, os bancos despertam para os ativos ambientais, contudo, o estatuto da Febraban (Federação Brasileira dos Bancos), em que pese o fato de operar na maior biopotência do Planeta, ainda não inclui explicitamente a palavra “ambiental”.

Mudanças sutis podem fazer diferença nos negócios e na imagem das instituições. No Brasil, mais de 50% dos ativos movimentados na Bovespa dependem de matéria prima — recursos naturais.

E a falta de indicadores eco-econômicos dá lugar a planejamentos e investimentos inadequados. A crise financeira internacional desnorteia mercados e mascara efeitos da crise climática que solapa pilares da economia insustentável. Para continuarem transparentes empresas e bolsas de valores terão que revelar o teor de carbono (e de descarbonização) das ações negociadas.

Inventários de carbono das empresas passarão a ser uma exigência do mercado. Se lançado na Bovespa, o “Carbon Index” dará ao ISE (Índice de Sustentabilidade Empresarial) o upgrade desejado. A migração do homo economicus para o homo sustentabilis é inexorável, a começar pelos executivos do mercado financeiro, uma realidade que Febraban e Bovespa, em crise, terão que enfrentar.


Eduardo Athayde

Diretor do WWI-Worldwatch Institute no Brasil
E-mail: eduardo@uma.org.br

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