| O que você espera da Rio+20? | |
A festa que começa esta semana em Ilhéus, tímida e despretenciosa, revela a importância do investimento na mudança cultural de uma sociedade. Dificuldades, embates e incompreensões do passado parecem hoje contar a historia do nosso futuro. A partir deste I Festival de Chocolate, realizado entre 10 e 13 de junho, em Ilhéus, a geração de cacauicultores que resiste ao descaso com que a rica região cacaueira da Mata Atlântica é tratada, envia sinais de alerta e novo comando para o mercado, animando as gerações presentes e futuras.
O cacau que ainda deixa as fazendas sem certidão de nascimento, viaja sem carteira de identidade e atravessa os oceanos sem passaporte, tem dias contados. A ordem é registrar a origem, mostrando para o Brasil e para o mundo, as riquezas do local onde o cacau da Mata Atlantica é cultivado em ambiente de alta biodiversidade, exigindo respeito e reverência ao ambiente preservado, agregando valores localmente, atraindo atenções e novas rendas.
A historia recente registra pequenos fatos que contribuíram para a mudança cultural de uma das mais ricas regiões do Brasil. Em 1996 levamos à ABC-Associação Brasileira de Cacauicultores, em Salvador, a proposta de criação de uma lista do cacau na internet, integrando produtores. José Mendes e Deroaldo Boida, integrantes da diretoria, articularam-se com provedores pagos de internet nos EUA, criando assim a lista. Na época, poucos cacauicultores tinham email e a região cacaueira não dispunha de provedor. Marcelo Lins, dentista e cacauicultor, pioneiro no mundo virtual, fazia conexão através de ligação interurbana para Vitoria da Conquista, pagando caro pelos pulsos lentos da internet.
O jornal A Tarde ainda publicava semanalmente uma coluna do cacau, divulgando previsões de safras e a dança dos preços das commodities nas bolsas de Londres e Nova Iorque, onde dealers, ávidos, aguardam o ouro camuflado nas sacas de cacau que saem das fazendas recheadas de riqueza e ignorância.
Os produtores são catequizados com doses freqüentes, inteligentes e anestesiantes de informações, acompanhadas de analises proféticas que mostram a evolução dos preços e ameaças para os que ousam discordar da commodity como única saída para geração de renda e escoamento da produção de cacau - embaçando a visão dos cacauicultores. Dentro deste cenário, o Plano de Recuperação da Lavoura Cacaueira foi elaborado visando apenas o combate a vassoura e o aumento da produtividade, sem contemplar opções para agregação de valores e quebra da commodity. Com isso, o produtor já debilitado ficou financeiramente ftragilizado.
Construindo pilares para mudança cultural
Em 1999, após a visita do presidente do WWI-Worldwatch Institute, Lester Brown, um dos mais respeitados ambientalistas do mundo, ao Brasil, para lançamento do relatório Estado do Mundo, em parceria com a Rede Globo e a Folha de São Paulo, o WWI iniciou pesquisas independentes sobre a economia global do chocolate que, na época, movia 60 bilhões de dólares. Hoje, passa dos US$200 bilhões, deixando apenas 3% deste total para o produtor de cacau. Qual será o valor da economia dos ativos ambientais da Mata Atlântica com recordes de biodiversidade registrado pelo Jardim Botânico de Nova Iorque? E o chocolate especial, com terroirs (paladares/perfumes/características organolépticas) diferente desta floresta?
As publicações do WWI, com respeitabilidade e prestígio internacional, revelaram para o mundo o potencial da região cacaueira da Mata Atlântica, batizando-a de Floresta de Chocolate. Em 2001 a revista World Watch, premiada pela imprensa internacional, publicou nos EUA matéria de capa com o título: “Começa a recuperação da Mata Atlântica. O chocolate pode resgatar a floresta”, republicada pelo Jornal The New York Times, abrindo manchete de duas paginas sobre a rica região biodiversa da Bahia. Em 2002, a matéria do WWI foi discutida na Cúpula da ONU de Johanesburgo, na Africa do Sul, mostrando como a cultura do cacau pode ajudar a melhorar a qualidade de vida nos locais de cultivo preservando os ecossistemas.
Avançando nas pesquisas, em 2003, o WWI lançou o livro “Econegócios na Floresta de Chocolate da Bahia” na embaixada brasileira de Washington, em parceria com o Jornal Washington Post. Tedjusi Ida, um dos muitos colaboradores das pesquisas e editor chefe da agencia de noticias Kyodo News, a maior da Ásia, maior do que a Reuters, veio a Ilhéus para visitar as fazendas de cacau das terras do sem fim, cenários das historias de Jorge Amado que, magnetizado, gostava de ler. De vota a Tokyo, Ida escreveu matéria de duas páginas para 47 jornais da Ásia, publicada com destaque pelo jornal japonês Asahi Shimbun, o maior do mundo, com tiragem diária de 15 milhões de exemplares (o maior do Brasil, Folha de São Paulo, tem tiragem diária de 350 mil exemplares).
Em 2004, a convite de Eugenio Guarducci, partimos para a Eurochocolate, evento criado por ele, engenheiro italiano que herdara dos pais hotéis em crise com a queda do fluxo de turismo na cidade italiana de Perugia, localizada na região italiana da Úmbria. O festival de chocolate foi a fórmula encontrada para encher os hotéis. Hoje, realizada em vários lugares da Itália e em outros países da Europa, a Eurochocolate atrai um milhão de turistas em cada lugar, liderando os negócios milionários do herdeiro em dificuldades.
Em 2005, a repórter da TV Santa Cruz, Marta Almeida e o câmera Marcelino (que queimou os lábios com o frio da Europa), nos acompanharam na viagem a Turim, no norte da Italia, para o Cioccolatto, evento aberto, em praça publica, reúnindo vários expositores. Com o faro fino de jornalista tarimbada, Marta rodou a Itália, Suíça e Áustria, gravando a mágica de tradicionais artesãos chocolateiros que transformam cacau em chocolate fino, da melhor qualidade, para o documentário a Saga do Cacau, levado ao ar pela Rede Globo e produzido em DVD. Um registro histórico para uma região que começa a se reinventar.
No final de 2005, participamos ainda do SIGEP, feira internacional do chocolate da cidade de Rimini, no noroeste da Italia, a convite do governo italiano e da Promo Bahia. Lá, Roberto Lessa, da fazenda Vale das Julianas, conectado com as mudanças em curso, apresentava a embalagem do chocolate “Jóia da Juliana”, da Mata Atlântica.
Em 2006, Lester Brown, que circula o mundo convidado por presidentes, universidades e investidores, retornou à região cacaueira para visitar embriões das Fazendas de Chocolate, hospedou-se nas fazendas Camacan, de Ozéias Gomes, em Buerarema; e São José, em Itacaré, onde Cleber Isaac realiza um trabalho pioneiro transformando preservação em econegócios.
Seguindo de Ilhéus direto para Pequim, onde, a convite do primeiro ministro chinês, palestrou na abertura do Congresso do Povo, Lester levou o chocolate produzido na Ceplac incluindo-o na sua fala para os parlamentares chineses. A imagem da biodiversa Floresta de Chocolate, e o sabor do chocolate com mais cacau, segundo ele - o melhor do mundo por embutir no gosto os princípios da preservação -, deixou os congressitas que governam a China, hoje o maior parceiro comercial do Brasil, com bocas molhadas. (2007 e 2008 são capítulos a parte e serão contados nos próximos artigos. 2009, que ainda está acontecendo, será um marco)
O novo potencial da Ceplac
A Ceplac, que tem a sua pesquisa reconhecida em todo o mundo, criada pela força e recursos dos cacauicultores, foi deixada à míngua durante muito tempo, asfixiada de um lado por orçamentos que desrespeitam a importância da pesquisa cientifica e, de outro, por administrações desalinhadas com a inteligência do seu competente corpo técnico-científico. Respeitada, o nome da Ceplac confunde-se no mundo com o de Paulo Alvim, o mais conhecido e premiado cientista brasileiro na sua área.
Na era da informação, instituições geradoras de conhecimento são fundamentais na construção da sustentabilidade. Sem instituições como a Ceplac não teríamos chegado até aqui. Assim como mudanças precisam de lastros do conhecimento e de visão estratégica, sabemos que instituições que não se atualizam e não se renovam são engolidas pela fome do tempo.
Neste momento em que movimentos internacionais apontam para uma economia de baixo carbono, a Ceplac pode ser estratégica na transferência e na aplicação desses novos conhecimentos, afinal, esta é a sua missão.
Na última semana de maio, 700 presidentes das maiores empresas do mundo debateram novas estratégias empresariais na Cúpula Empresarial para as Mudanças Climáticas, em Copenhague, capital da Dinamarca. A descarbonização da economia está na ordem do dia, é moeda da vez. Os benefícios econômicos para uma rota economica de baixo carbono podem chegar a US$ 2,5 trilhões por ano mundo que cresce a um ritmo acelerado de 70 milhões de novos habitantes/consumidores por ano - uma França por ano.
Os projetos de sequestro de carbono do Protocolo de Kyoto, presos a questões técnicas, acadêmicas e burocráticas, ainda estão distantes do mercado. Nas novas discussões para modelo que substituirá o Tratado de Kyoto, os mecanismos de mercado estão sendo aperfeiçoados e simplificados.
Ligando o seqüestro de carbono a produtos da Mata Atlântica, como o chocolate, massas de recursos serão carreadas para esses "negócios limpos", ajudando a descarbonizar o planeta, contribuindo para a preservação através de lucrativos econegócios.
Do jeito que estamos, ambientalistas, economistas e empresários entram no mesmo time para ganhar o jogo ou todos perdermos. Créditos de carbono e de biodiversidade, negociáveis, são parte dos princípios do preservador-pagador, que ensina a ganhar com a preservação.
O novo diretor geral, Jay Wallace, prata da casa, sintonizado com os colegas, tem um grande desafio: Na nova visão, o pé de cacau pode sequestrar carbono devolvendo-o à sociedade sob forma de chocolate. Dentro desse cenário, qual será o novo plano de ação a ser executado pela “Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira”?
Cacauicultores abraçam os econegócios
Esta revolução não seria possível sem a garra e a determinação de cacauicultores que acreditam que a crise antes de ser da bruxa é da cultura econômica que “doa” a riqueza do cacau a 3 reais o quilo nas fazendas enquanto o quilo do chocolate - cada vez produzido com mais cacau -, ultrapassa 300 reais em muitos lugares do mundo. Abnegados, arregaçam as mangas para enfrentar as adversidades.
Cauicultores reativos avançam em busca de soluções. Norberto Odebrecht, Paulo Tosto, Derolado Boida e Angelo Sá, pioneiros na clonagem das fazendas Vale da Juliana, Paineiras e Cantagalo, negociam cacau de qualidade com compradores internacionais, quebrando a commodities. Eimar Rosas, também da Paineiras, já descobriu “os ouros” do cacau e as largas fronteiras dos econegócios, montando lucrativas transações internacionais. Leonardo Sourice, da Juliana, vende toda a produçao de cacau de qualidade direto para o Japão. Sergio Gondim, da Serra da Papuã, além de cacau, reúne empresários rurais locais para comercializar heliconias, zingiberaceaes, musas, costus, calatheas e outras plantas tropicais.
O “cocoatier” frances Nicolas Maillot, da fazenda Victória, visionário, juntou parceiros para a criação da APCFE (Associação de Produtores de Cacau Fino), organizando missões de chocolateiros europeus para visitar e comercializar o cacau fino, com diferentes terroirs, quebrando a commodity. João Tavares e Diego Badaró, produzem e divulgam o cacau fino e o chocolate em sites e entrevistas nacionais e internacionais, viajando pelo mundo escolhem a dedo compradores para os seus produtos especiais, quebrando a commodity.
Fausto Pinheiro, da fazenda Dendévia, presidente da comissão do cacau do Ministério da Agricultura, à frente da Cabruca (Cooperativa de Produtores Orgânicos do Sul da Bahia) exporta para a Europa, junto com suíço Mark Nusheler, expert em mercados internacionais do cacau, produtos especiais a preços muito diferenciados. Quebrando a commodity, firmaram parcerias para fornecimento de matéria prima que a Natura usará nos produtos a base de cacau, nova tendência da moda no mundo.
O cacauicultor-enólogo frances Patric Labarré, de Una, faz o melhor vinho de cacau do mundo a partir da polpa. Experimentado de olhos fechados pelo português João Miguel, especialista em vinhos do porto, foi batizado como um dos melhores que já tomou. Ao abrir os olhos, ficou espantado com o vinho da polpa do cacau e o potencial da “mata”. O que pensarão os restaurantes do mundo quando descobrirem os sabores da “nossa mata”?
Fernando Botelho, Ronaldo Monteiro e José Carlos Assis, investem na polpa de cacau e em flores tropicais, enquanto Virgilio Amorim optou pelo turismo, que cresce com visitantes atraídos pelas velhas e novas historias da gente do cacau e pela mesa farta, com “receitas da mata”. Isidoro Lavigne, presidente do Sindicato Rural de Ilhéus, entusiasmado, não perde mais o Salon du Chocolate de Paris. Guilherme Moura, pulando na frente, prepara-se para inaugurar a sua fábrica de chocolate da Mata Atlantica, sintonizado com os lucros dos chocolateiros.
Sena Gomes, cientista que faz muita falta à Ceplac, empreende plantios de guanandi, de alta lucratividade. Ricardo e Ozéias Gomes, incansáveis batalhadores do cacau, já receberam gente de todo o mundo nas roças de cacau clonadas, e organizam parcerias com empresas chocolateiras da Europa e EUA, interessadas em sediar filiais na fazenda Camacan, quebrando commodity. O cientista- Julio Cascardo, pró-reitor de pesquisa da Uesc e cacauicultor descomoditizado, e Lola Gedeon, são os mais articulados nos EUA. Alexandre Gedeon produz perfumes com essências da Mata Atlântica.
Rui Rocha, Dario Anhert e Durval Libânio, professores da Uesc, ambientalistas convictos e ecoempresarios, ensinam comunidades a lucrar mais com os ativos ambientais da preservação. A frente do Instituto Floresta Viva e Instituto Cabruca, importam para a região cacaueira inteligência de ponta, treinando mentes para o enxergar o ouro verde que está tão perto quanto a ponta do nosso nariz.
O acasário (acadêmico-empresário) Gonçalo Pereira, coordenador da pesquisa do genoma da vassoura-de-bruxa, da Unicamp, já descobriu que o problema não está só na vassoura e avança nos experimentos de roletagem de troncos inventados por Edvaldo Sampaio, de Gandú. Em sociedade com Ricardo e Ronaldo Abud, Gonçalo produz cacau fino e líquor na fazenda Porto Novo.
De urina de vaca a injeção de soro glicosado, passando por reza e pesquisa científica de ponta, os novos empreendedores das fazendas de Mata Atlantica, hospedeira do cacau, abrem novos caminhos. Os muitos pioneiros que não foram aqui citados, igualmente merecedores dos créditos, fazem parte da rede de inteligência nova que alimenta o processo de releitura, reinterpretação e renascimento. Esta é a realidade vivida agora nesta rica região.
O Espírito Santo lucra na frente
No Espirito Santo, Luciano Meller e Flavio Abaurre, investem nas maquinas de produzir chocolate a partir da amêndoa de cacau. Na verdade são maquinas de fazer dinheiro, o mesmo que sai camuflado nas sacas e são doados aos dealers das commodities.
O produtor de líquor e exportador Paulo Gonçalves, diretor da Floresta Rio Doce, coordena o novo Programa da Renovação da Lavoura Cacaueira do Espirito Santo, montado pela Ceplac, a Acal (Associação de Cacauicultores de Linhares), Prefeitura Municipal de Linhares, e Incaper (Instituto Capixaba de Pesquisa Assistência Técnica e Extensão Rural). Menor e mais organizado, o Espirito Santo lucra na frente.
Da Floresta de Chocolate da Bahia para Paris
Com tanta coisa acontecendo, Danielle Mitterrand, viúva do ex-presidente François Mitterrand, primeira dama da França por 16 anos, presidente da Fundação France Libertés e parceira do WWI, foi a Ilhéus em abril de 2009. Apaixonada pelo chocolate da Mata Atlântica visitou a Ceplac acompanhada do diretor geral Jay Wallace, do presidente da Associação dos Cacauicultores, Henrique Almeida, e foi recebida pelo governador Jaques Wagner, em Itabuna.
De volta a França, madame Mitterrand, uma das mulheres mais poderosas do mundo e a mais nova “garota propaganda” da Floresta de Chocolate, formadora de opinião, levou os chocolates produzidos na Ceplac - o melhor que já havia provado, segundo declarações feitas a imprensa. Nas palestras que faz pelo mundo passará a contar como a gente da Mata Atlântica está reconsiderando as suas riquezas, garimpando o ouro do cacau.
O Festival de Chocolate
A Floresta de Chocolate pode aproveitar o exemplo de cidades como Nova Iorque e Paris, que distribuem catálogos das suas lojas de chocolate, e publicar um guia das Fazendas de Chocolate, organizando e fortalecendo a oferta de produtos e serviços de uma cadeia produtiva de econegócios que aprende a agregar os valores dos seus ativos, apropriando rendas e usufruindo da inteligência das classes organizadas.
Enquanto nos organizamos por aqui, o Festival de Chocolate de Gramado continua a levar todos os anos cerca de 200 mil turistas para a serra gaúcha - onde não tem pé de cacau -, que gastam uma media de 250 reais por visitante/dia entre estadia, alimentação e outros dispêndios, despejando R$ 50 milhões de recursos novos na economia local, em uma semana.
Quanto será que a economia cacaueira, abraçando o princípios dos econegócios poderá atrair em rendas novas, com inovação, ciência, tecnologias; infra-estrutura de rodovias, porto e aeroporto; e mais, a cultura do cacau, as belezas naturais, as praias, os princípios ativos das plantas e o imaginário de Jorge Amado, divulgado pelos quatro cantos do mundo em mais de 40 idiomas? Isso tudo pode ser respondido por pessoas reunidas, trocando informações e construindo inteligência nova em eventos como Festival de Chocolate da Mata Atlântica.
Diretor do WWI-Worldwatch Institute no Brasil
E-mail: eduardo@uma.org.br
|
||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
O Portal EcoD é um projeto do Instituto EcoDesenvolvimento
Direitos Autorais - Condições de uso do conteúdo
SEJA PARCEIRO DO ECOD