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Delfim Netto
Política monetária
Por Delfim Netto

É cada vez mais evidente a dissonância entre a política monetária simplista executada por Bancos Centrais operacionalmente autônomos durante a última década e a realidade que eles pensavam estar controlando.

Embalados na ideia de que os mercados financeiros eram perfeitos e se autorregulavam, surfaram um extraordinário período de expansão econômica mundial com taxas de inflação declinantes. Parasitaram tais eventos atribuindo-os a si! O período de aparente estabilidade, entretanto, era apenas a antecipação do choque de falhas técnicas que produziram - para surpresa deles e do mundo que neles acreditava -, o maior terremoto econômico da segunda metade do século.

A prova disso é que hoje os Bancos Centrais, além da simplista manobra da taxa de juros básica, estão em busca de velhas técnicas abandonadas e de novas técnicas (a serem descobertas!) para ajudar no controle da inflação e na sustentação de um alto nível de emprego. Uma delas é o famoso QE ("quantitative easing"), usado pelo Fed americano. O problema é que tal manobra tem suporte teórico mais do que duvidoso e evidência empírica até agora nula!

Desde o Proer, em 1997, nosso Banco Central tem sido muito atento à sua maior missão, que é a de proteger e conservar a higidez e a estabilidade do sistema financeiro, fundamental para o funcionamento da economia real. Outra de suas missões -que ele também cumpriu bem- é a de usar a sua autonomia operacional para estabilizar as expectativas inflacionárias com políticas que mantenham a taxa efetiva de inflação em torno da "meta" estabelecida pelo poder político.

No lançamento de suas mais recentes medidas para controlar a expansão do crédito, que potencialmente poderia terminar na construção de uma "bolha" (aumento do "velho" compulsório; aumento da exigência de capital dos bancos para operações de determinados "riscos" e prazos e novos limites para a compra de carteiras de crédito), nosso Banco Central explicitou sua tendência a incluir novos mecanismos para o controle da taxa de inflação sem, obviamente, abandonar o uso da manipulação da taxa básica de juros.

É isso, no fundo, o que revelou o dr. Meirelles ao justificá-las, quando afirmou que "a experiência dos BCs sugere que há uma equivalência importante entre as ações macroprudenciais, que afetem as condições de crédito e liquidez, e as ações convencionais de política monetária".

Teria o dr. Meirelles, da noite para o dia, ficado "obsoleto" ou se transformado num "heterodoxo", como temem alguns analistas?


Delfim Netto

Economista, formado pela USP e professor de Economia, foi ministro de Estado e deputado federal.

*Coluna publicada no jornal Folha de S. Paulo às quartas-feiras.

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