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Delfim Netto
PIB
Por Delfim Netto

Para um entendimento mais adequado do comportamento do PIB nos últimos três anos, talvez seja melhor trabalhar com o seu nível em lugar da sua taxa de crescimento.

Por definição, o PIB é o valor adicionado de todos os bens e serviços produzidos numa certa unidade de tempo.

Para eliminar as variações dos preços, o IBGE construiu estimativas do PIB "físico" escolhendo os preços do ano-base 1995 e com eles calculou o valor do PIB de cada ano.

É evidente que, se medirmos todos os PIBs anuais (ou trimestrais) aos preços vigentes num determinado ano (chamado de "base") teremos uma série que será uma razoável aproximação do PIB "físico", a despeito da enorme variedade de seus produtos.

Pode-se, assim, estimar a taxa de crescimento do PIB comparando-o com o PIB "base". Pois bem, medido aos preços médios vigentes em 1995, o PIB do primeiro trimestre de 2010 foi de R$ 264,6 bilhões e o de 2011, de R$ 275,6 bilhões.

Logo, a estimativa do crescimento real ("físico") entre o primeiro trimestre de 2011 em relação a 2010 pode ser encontrada dividindo R$ 275,6 bilhões por R$ 264,6 bilhões: 4,2%, como indicou o IBGE.

Qual o significado desse dado? Grosseiramente, podemos considerá-lo como a demanda total (privada e pública) atendida pela estrutura produtiva interna somada às importações que a complementam.

Esse entendimento é fundamental para não se deixar enganar pelo truque estatístico que identifica, por exemplo, o alta de 9,3% do primeiro trimestre de 2010 sobre o seu homólogo de 2009, como "excessiva demanda global com relação ao produto potencial".

O PIB "físico" atingiu o índice mais alto da série (150,3 em relação à base 100 de 1995) no terceiro trimestre de 2008, quando a taxa de inflação era de quase 4,5%.

A explosão da crise do Lehman Brothers nos atingiu fortemente. No primeiro trimestre de 2009, o PIB físico desabou, com ajuste sazonal, para 141,3, uma queda de 6%! Na média, o PIB de 2009 caiu 0,6% em relação a 2008. Ele só voltou ao nível anterior de 151,2 no quarto trimestre de 2009, com a "criação" da demanda induzida pelos programas de estímulos do governo.

O crescimento do PIB de 9,3% no primeiro trimestre de 2010, de 9,2% no segundo, de 8,4% no terceiro e de 7,5% no quarto semestre são só reflexos da recuperação da demanda sobre uma estrutura produtiva relativamente estável. O aumento do PIB nunca foi superior a 5% nos últimos anos.

O número do IBGE, de 4,2% para o primeiro trimestre de 2011/2010, revela um ajustamento para baixo que provavelmente vai continuar: a taxa de aumento do consumo está diminuindo e a taxa de investimento recuperou o nível de 18,4% do PIB (com um deficit em conta-corrente de 2,6%).


Delfim Netto

Economista, formado pela USP e professor de Economia, foi ministro de Estado e deputado federal.

*Coluna publicada no jornal Folha de S. Paulo às quartas-feiras.

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