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Delfim Netto
Meta de inflação
Por Delfim Netto

Um célebre princípio de precaução nos informa que "todos os modelos são errados, mas são úteis".

A macroeconomia é habitada por um grande número deles, que envolve relações de comportamento e equações até uma simplificação heroica com três equações, usada para fins didáticos por quase todos os Bancos Centrais.

Uma equação comum a esses modelos relaciona a atual taxa de inflação à expectativa inflacionária, à diferença entre o PIB atual e o PIB potencial e a eventuais choques de oferta, como uma frustração de safra causada por El Niño.

Durante algum tempo, nos anos 60, cultivou-se a ideia de que se poderia explorá-la para trocar PIB (ou emprego) por taxa de inflação, mas a esperança foi rapidamente destruída com a descoberta do efeito da "expectativa" na determinação da inflação corrente.

Com a crise de 2007, as dúvidas sobre como se formam tais expectativas cresceram.

Desde o início do século 21, a expectativa da inflação dos EUA permaneceu praticamente constante (2%), a despeito das enormes flutuações do emprego e do PIB, a ponto de hoje acreditar-se que os EUA só não estão sofrendo uma recessão devido à firmeza dessa expectativa.

Em outras palavras, esta não seria criada apenas pela "credibilidade" de um BC autônomo, mas teria alguma característica estrutural. Tanto que agora o Fed tenta, sem sucesso, criar uma expectativa inflacionária maior do que 2% para mitigar a saída da crise.

Toda sociedade economicamente aberta e com boa governança parece ter um número (historicamente condicionado) que determina a menor taxa de inflação com a qual pode conviver e estabelecer a necessária flexibilidade dos mercados (inclusive a regulação do mercado de trabalho) capaz de levá-la ao uso eficiente da sua capacidade produtiva.

Certamente ela depende da qualidade das instituições e, portanto, a sua redução para um nível adequado deve ser objeto da política econômica de longo prazo.

Vamos, entretanto, "combinar" uma coisa. Não há modelo teórico (nem haverá!) que estabeleça tal mínimo, e não há a menor evidência empírica de que revele qualquer relação (linear ou não linear) entre a taxa de crescimento do PIB no longo prazo e taxas de inflação menores do que 7% ou 8% ao ano.

Há claras evidências (e o Fed é testemunha) de que metas inflacionárias menores que 2% podem apresentar problemas para o ajuste do mercado de trabalho e para a eficácia da política monetária.

No curto prazo - e enquanto não fizermos a lição de casa na política fiscal -, a meta de inflação de 4,5% ao ano parece perfeitamente adequada à nossa situação.

*Coluna publicada no jornal Folha de São Paulo


Delfim Netto

Economista, formado pela USP e professor de Economia, foi ministro de Estado e deputado federal.

*Coluna publicada no jornal Folha de S. Paulo às quartas-feiras.

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