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Delfim Netto
Luz no fim do túnel?
Por Delfim Netto

Na última semana dois pronunciamentos acenderam uma luz de esperança sobre o futuro da economia mundial. O primeiro foi da diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, que afirmou com toda clareza que o purgante (neoliberal moralista) recomendado aos países endividados da Eurolândia, para que devolvam o que comeram mais do que podiam no passado não vai funcionar! Sem prosopopeia, afirmou definitiva e claramente aqui no Brasil (2/12), o que muitos ainda se recusam a aceitar: "Sem crescimento será impossível cuidar do problema das dívidas."No mesmo dia, na Alemanha, a chanceler Angela Merkel (terá ela acertado com o presidente Sarkozy?), comunicou ao Parlamento Alemão que vai apoiar mais um passo importante para completar a federação inconclusa da Eurolândia (os 17 países que adotaram o Euro como moeda): promover a integração fiscal e aperfeiçoar alguns dispositivos do Tratado de Maastricht.

Merkel, finalmente, parece ter introjetado o grave problema da Eurolândia quando afirmou que não se trata apenas da questão das dívidas, mas de uma questão de "confiança" e preveniu que tal solução, se aceita, será um "longo processo, que levará anos para realizar-se. Trata-se de uma maratona".

Os alemães parecem ter compreendido que, numa larga medida, o "problema das dívidas" dos "negligentes e consumistas" países latinos foi criado pelo próprio funcionamento do dinamismo dos valores das antigas moedas nacionais dentro do euro. A grande verdade é que o "deutsch mark" (por virtudes ou condições objetivas) "desvalorizou-se dentro do euro" produzindo ao longo dos anos um superávit comercial da Alemanha que só podia ser saldado pelos seus parceiros da Eurolândia, com o aumento de suas dívidas junto ao sistema financeiro privado, como aconteceu.

É preciso chamar a atenção que a questão cambial da Eurolândia tem uma outra vertente: a sobrevalorização do euro por tempo suficiente para enfraquecer as exportações da Eurolândia a partir de 2004. Isso se torna claro quando se considera que, de 1999 até o terceiro trimestre de 2011, o volume (físico) das exportações mundiais cresceu 105%, enquanto as exportações italianas cresceram 17%, as francesas 40%, as da Espanha 55%, e as da Alemanha 82%. Como afirmou o competente economista Patrick Artus ("L"Economie Politique", nº 52 - "Doit-on regretter Jean-Claude Trichet?", artigo do qual retiramos alguns dos números deste "suelto"), isso acelerou a desindustrialização da zona do euro. O emprego manufatureiro, com relação ao global, caiu de 20% em 1999 para menos de 16% hoje. A produção industrial total cresceu apenas 11%, com os efeitos negativos conhecidos: redução da qualidade dos empregos e redução do crescimento potencial pela queda da produtividade (apenas 0,7% ao ano).

É grave desinformação, por outro lado, pensar que só a Alemanha beneficiou-se da criação da Eurolândia. A taxa de inflação dos países que adotaram o euro em 1999 foi da ordem de 2% ao ano, nunca tendo sido superior a 2,5%. Em matéria de crescimento do PIB per capita eles não ficaram atrás dos EUA (em torno de 12%). A despeito dos grandes desequilíbrios internos de suas balanças comerciais, a Eurolândia tem praticamente equilíbrio com o resto do mundo e o seu déficit em conta corrente é da ordem de 1% do seu PIB. É interessante que com relação ao seu PIB total, o déficit público da Eurolândia é da ordem de 4%, enquanto o dos EUA anda em torno de 10%. Finalmente, um fato da maior importância: Entre 1999 e 2011, o emprego total na Eurolândia aumentou em quase 12% (a despeito do imenso desemprego em alguns países membros, particularmente a Espanha), enquanto nos EUA ele não chegou a 3%.

O mais notável efeito da introdução do euro foi a convergência das taxas de juros, pagas à dívida soberana de seus membros, à taxa alemã. Apenas para dar um exemplo: a taxa de três meses da dívida grega caiu de 15% para 3% ao ano e as da Espanha e Portugal de 12% para 3%. Infelizmente os benefícios produzidos pela redução do custo da dívida foram muito mal aproveitados. Contando com crédito fácil gerado pelas "inovações" financeiras (as famosas armas de destruição em massa) e protegidos pelas agências de risco, os governos prosseguiram na sua largueza de gastos até chegarem á beira da insolvência.

Com o benefício do "futuro" ter se tornado "passado", vemos com clareza que não foi apenas o não cumprimento das condições impostas pelo Tratado de Maastricht que levou a Eurolândia à dramática situação que ficou escondida por dez anos até ser exposta pela crise financeira americana. A própria fixação do valor das moedas dentro do Euro continha a semente da sua destruição porque ignorou o fato que a unificação monetária (sem o necessário complemento fiscal) não levaria a uma convergência estrutural das economias reais.

A resposta do famoso "mercado" a essa fundamental mudança do FMI e da Alemanha foi, pelo menos no primeiro momento, de quase euforia. O reconhecimento que apenas a "austeridade fiscal" não é a solução pode levar a um avanço dramático na direção de encontrá-la.


Delfim Netto

Economista, formado pela USP e professor de Economia, foi ministro de Estado e deputado federal.

*Coluna publicada no jornal Folha de S. Paulo às quartas-feiras.

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