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Delfim Netto
Dobrar a aposta
Por Delfim Netto

É inegável que uma taxa de inflação (IPCA) de 0,53% em setembro (5% no ano e 7,3% em 12 meses) deixa o governo numa situação desconfortável.

Esperava-se que a taxa de 12 meses deveria dar os primeiros sinais de acomodação em setembro e iniciar uma convergência para tangenciar o limite superior do intervalo de tolerância (6,5%) em dezembro.

Como a média das taxas de inflação no último trimestre de 2010 foi muito alta (7,4%), talvez ainda haja uma chance de o Banco Central não ter de explicar-se, por escrito, ao ministro da Fazenda.

Outro problema -com resultado positivo sobre o crescimento, mas negativo em relação à inflação- foi a valorização externa do dólar, o que, com uma pressão marginal da redução da taxa Selic, desvalorizou o real em 15%.

Agora, com a intervenção do BC, o real está num processo de busca de equilíbrio entre 1,7 e 1,8 real/dólar. Isso afeta mais as "expectativas" da inflação do que os preços.

Isso porque, primeiro, cada 1% de desvalorização do dólar tende a reduzir em quase 3% a cotação das commodities. Segundo, porque a ligação entre a taxa de câmbio e o preço interno não é nem imediata nem diretamente proporcional. Terceiro, porque a soma das exportações com as importações em relação ao PIB não chega a 20%, o que dilui o seu efeito.

Tudo isso está a mostrar que o BC e o Ministério da Fazenda precisam ampliar os seus esforços para cooptar o sistema financeiro para o seu programa e convencê-lo de que a meta de inflação de 4,5% no final de 2012 não foi abandonada em nenhum momento.

Dentro das regras conhecidas da política de metas de inflação e tendo em vista o que ocorre no mundo e no Brasil, só se alongou o prazo da meta inflacionária e se deu maior peso ao nível da atividade.

Não devemos esquecer que as medidas prudenciais postas em prática desde janeiro ainda não mostraram todas as suas consequências. A taxa de crescimento do PIB (e, particularmente do setor industrial) está dando sinais preocupantes de rápido arrefecimento, e não é fora de propósito supor que em dezembro estejamos rodando a uma taxa de crescimento do PIB, na margem, da ordem de 2,5%.

Há muito trabalho pela frente para reancorar as expectativas inflacionárias em 4,5%. Se quisermos mesmo ter uma taxa real de juro entre 2% e 3% num prazo razoável, deveremos começar a preparar o terreno: não apenas manter sólida política fiscal e segura política monetária mas também pensar no inevitável processo de desindexação da economia e nas necessárias políticas microeconômicas para aumentar a produtividade dos setores público e privado.


Delfim Netto

Economista, formado pela USP e professor de Economia, foi ministro de Estado e deputado federal.

*Coluna publicada no jornal Folha de S. Paulo às quartas-feiras.

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