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Delfim Netto
Davos e nós
Por Delfim Netto

O conhecimento dos ensinamentos da "escola" neoclássica é necessário, mas não suficiente para a formulação adequada da política econômica que tenta maximizar o emprego e o PIB com o controle da inflação e do balanço em conta corrente. Por maior que seja a resistência de seus seguidores para aceitar a ideia, deveria ser claro que ela, sub-repticiamente, envolve a crença em leis "naturais".

De vez em quando, entretanto, nos momentos mais eufóricos, os neoclássicos baixam a guarda e revelam o fato.

Agora mesmo, em Davos, um dos seus mais representativos defensores, o Institute of International Finance (IIF), um "think-tank" localizado em Washington (financiado pelo sistema financeiro internacional), declarou por seu porta-voz que o Brasil "deveria abandonar a ideia de controlar o real e permitir a evolução natural do seu valor".

E completou: "Se existem pressões naturais dos fundamentos econômicos elevando o valor do real, todo esforço para controlá-lo será custoso e inútil". Ao final, ele disse que deveríamos "deixar o real encontrar naturalmente um valor de mercado mais realista e focar outras coisas, como a política fiscal".

O primeiro conselho é naturalmente duvidoso porque não há relação estável entre "fundamentos" e taxa de câmbio. O segundo faz sentido.
Entretanto por motivos não naturais. Devemos praticar um controle nos gastos de custeio e realizar uma enérgica mudança no financiamento da dívida pública para levar o juro real do Brasil, a um prazo adequado, ao nível internacional. Esse é o ponto. Não há nenhuma lei natural que garanta que somos um caso teratológico (produzido por qualquer "gene": inflação no passado, insegurança jurídica, planos fracassados etc.) que exige, naturalmente, a maior taxa de juro real do mundo.

Os mercados de bens e serviços são diferentes dos financeiros, onde se determina a taxa cambial. Nos primeiros, enfrentam-se dois grupos antagônicos (compradores e vendedores distintos) e o equilíbrio é produzido por suas forças relativas. No segundo, quando o valor de um ativo se eleva, sua demanda necessariamente não cai.

Pode (como ocorre frequentemente) elevar-se porque cada agente é, alternadamente, comprador ou vendedor. É isso o que ocorreu com a moeda (taxa de câmbio) após as espetaculares "inovações" financeiras e a informática transformaram-na numa "mercadoria" comprada e vendida diariamente num mercado que é 20 vezes maior do que o de bens e serviços transacionados externamente.

É mais do que evidente que a concorrência financeira não limita a flutuação da taxa de câmbio.


Delfim Netto

Economista, formado pela USP e professor de Economia, foi ministro de Estado e deputado federal.

*Coluna publicada no jornal Folha de S. Paulo às quartas-feiras.

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