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Delfim Netto
Adeus à tranquilidade
Por Delfim Netto

Há pelo menos quatro décadas vigorou o processo de estabelecer contratos individuais por um ano para o preço FOB do minério de ferro entre as grandes mineradoras e as siderúrgicas europeias e japonesas. A ele aderiram outros países, inclusive a China. O sistema serviu durante todo esse tempo aos interesses dos produtores (evitando a competição predatória) e dos consumidores, dando-lhes a "garantia" da oferta física com preços previsíveis.

Um dos efeitos perniciosos da crise criada pelo sistema financeiro foi a desintegração desse processo. Tudo na economia baseia-se na "confiança": no cumprimento dos compromissos assumidos pelas partes contratantes.

Quando o preço à vista do minério veio abaixo do "benchmark" estabelecido, as siderúrgicas (a começar pelas chinesas) passaram a comprar o minério no mercado.

Esqueceram, convenientemente, os compromissos assumidos, o que levou à morte o velho sistema. Este será substituído por contratos trimestrais, o que manterá a garantia de fornecimento, mas aumentará a volatilidade dos preços de uma das mais importantes matérias-primas de uso universal. Pelo que se informa de maneira não muito transparente, a Vale fechou um contrato trimestral com a Nippon Steel com um reajuste de preços da ordem de 90%. Em 2009 (graças aos descumprimentos dos contratos), a mineradora reduziu seu preço em quase 30%.

É claro que mudanças dessa ordem terão efeitos microeconômicos internos (na taxa de inflação) e macroeconômicos (na relação de troca). Informa-se que a Vale encomendou estudo à FGV cuja conclusão foi que o efeito da atual elevação do preço do minério de ferro seria infinitesimal. Isso é contraintuitivo diante da influência do preço do aço no IPCA, no IPA e no Custo de Construção que formam o IGP-M, que comanda os preços indexados. Imaginem o estrago que isso poderá causar se o Banco Central tentar combater esse efeito de "preço relativo" com aumento da taxa de juros.

É claro que o "benchmark" era um sistema artificial. Ele garantia, entretanto, uma certa ordem num mercado muito complicado. A estrutura da oferta é praticamente um monopólio (três empresas detêm 2/3 da oferta obtida em dois países, que detêm 3/4 dela). A demanda é um monopsônio: quatro consumidores -China, Europa, Japão e Coreia- representam 4/5 da demanda global. Nesse jogo, não há nenhuma certeza de que se produza um equilíbrio estável.
O que é certo, entretanto, é que produtores e consumidores serão, agora, instrumentos dos "hedge-funds" predadores e de seus derivativos.


Delfim Netto

Economista, formado pela USP e professor de Economia, foi ministro de Estado e deputado federal.

*Coluna publicada no jornal Folha de S. Paulo às quartas-feiras.

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