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Cristovam Buarque
Copa da Sustentabilidade
Por Cristovam Buarque

Quando a ECO-92 foi realizada no Rio de Janeiro, não tínhamos consciência da dimensão da crise ecológica: havia um clima de euforia econômica no mundo capitalista, com o fim do império soviético e o crescimento propiciado pelo neoliberalismo. A reunião estava contra a corrente. Hoje, o mundo se encontra empobrecido pelos efeitos da crise econômica de 2008, indignado com o fracasso do sistema financeiro, com a convicção de que o liberalismo não é capaz de administrar a economia e, acima de tudo, assustado diante do risco da destruição ecológica.

E será nesse cenário que, em 2012, o Rio voltará a sediar o maior evento político deste início de século: a RIO+20, vinte anos depois da grande cúpula de 1992. Os chefes de Estado e de Governo do mundo inteiro debaterão o futuro da humanidade. A RIO+20 será um momento especial, e a cidade pode ser o ponto de partida para um novo rumo civilizatório.

Por isso, como país sede da reunião, deveríamos incentivar propostas para orientar o debate, apresentar rumos, conduzir negociações, formular um projeto alternativo para desenvolvimento no mundo. Enquanto estamos presos na euforia de sediarmos a Copa em 2014 e os Jogos Olímpicos em 2016, muitas pessoas no mundo já estão pensando nisso. Infelizmente, ainda não vemos no Brasil um movimento nesse sentido - os intelectuais não se mostram ligados, os políticos da oposição e da situação não falam no assunto, os candidatos à Presidência talvez nem tenham tomado conhecimento da cúpula.

Os presidentes e primeiros-ministros podem definir como o mundo trocará a civilização do alto consumo energético, movido a combustível fóssil, por uma civilização de menor uso de energia, com base em combustíveis não fósseis. O caminho para essa troca seria uma política fiscal que penalizasse o consumo de petróleo e gás e incentivasse as novas fontes alternativas de energia.

Com os recursos originários desta política fiscal mundial, seria possível criar um Fundo para gerar empregos e abolir a pobreza. Ainda mais empregos podem ser criados para gerar combustível e energias alternativas do que aqueles criados pela indústria petrolífera.

As soluções deverão ser locais, mas orientadas por regras ético-jurídicas internacionais, definidas a partir da RIO+20, para que o desenvolvimento entre em um novo rumo. Além disso, os governantes podem refazer, para o século XXI, o que foi feito por seus antecessores depois da II Guerra. Aquele foi o momento de reconstruir a economia destroçada; agora é o momento de enfrentar a destruição ambiental, a desigualdade social crescente e a ineficiência do sistema econômico e social.

No lugar do Plano Marshall, o mundo precisa de uma revolução de mentalidade, para orientar os propósitos civilizatórios, os padrões de consumo e de energia, e assegurar igualdade de oportunidades a todos os habitantes do planeta. A garantia de uma escola de qualidade para toda criança – não importando a nacionalidade, a renda dos pais, o PIB do país, com conteúdo libertário, que respeite de todas as culturas, dê conhecimento eficiente para produzir e obter emprego – levará a uma reorientação que permitirá enfrentar os problemas da modernidade: desemprego, baixa renda, pobreza, terrorismo internacional, desequilíbrio ecológico.

Isso demandará um esforço muito mais amplo e menos custoso do que aquele de hospedar a Copa e as Olimpíadas. Será também um evento de consequências muito maiores do que foi Copenhague, no ano passado, e será o México, no próximo ano.


Cristovam Buarque

Professor da Universidade de Brasília e Senador pelo PDT/DF
 

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