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Cristovam Buarque
Fuzilamento ou embrutecimento
Por Cristovam Buarque

Em sua autobiografia, o escritor russo Victor Serge escreveu que nos idos de 1933, na URSS stalinista, "não havia um único adulto pensante que alguma vez não tenha achado que podia ser fuzilado".

Atualmente, no Brasil, não existe um único adulto pensante que alguma vez não tenha achado que está embrutecido, moral ou intelectualmente, ou ambos. Perdemos a capacidade de sentir e sofrer com o que se passa ao redor, ainda mais de usar o sentimento para lutar por mudanças na realidade.

Embrutecemo-nos diante da desigualdade, da corrupção, da incoerência na política, do atraso educacional, sobretudo com da violência generalizada.

E ficamos sem entender o porquê destas deficiências, apesar do crescimento, da democracia, da eleição de partidos e de líderes portadores de esperança.

Até algum tempo atrás, sentíamos e tínhamos propostas: democracia, desenvolvimento, socialismo. O embrutecimento não ocorria porque explicávamos, propúnhamos e a esperança nos aliviava.

Depois de termos conseguido desenvolver e fazer do Brasil uma potência mundial na economia, termos eleito um presidente vindo das camadas mais pobres, com um discurso radicalmente diferente de todos os anteriores, substituindo outro que também vinha da esquerda, só nos resta o embrutecimento intelectual ao olharmos ao redor e percebermos que nada mudou na estrutura social do País. Continua a exclusão social, a violência urbana, a instabilidade financeira e fiscal. Ainda mais grave, faltam bandeiras, os partidos ficaram iguais, os políticos também.

Quem não se sentiu bruto uma outra vez ou quase sempre ao olhar de dentro do ar-condicionado do carro para os meninos pobres perdidos, pedindo esmolas, cheirando cola, ou simplesmente deitados na calçada ao lado dos pais? Salvo alguns que nem ao menos sentem, não há quem não se sinta bruto uma ou outra vez ao saber que, no Brasil, 60 crianças abandonam a escola a cada minuto do ano letivo. Que apesar de, felizmente, haver políticas públicas, de transferência de pequenas rendas, a concentração de renda não muda, a desigualdade não diminui e a pobreza não reduz a níveis que aliviem nossa brutalidade. O sentimento de embrutecimento vem da aceitação do noticiário diário sobre queima das florestas, morte de jovens, consumo de drogas, miséria, atraso, corrupção.

Ao lado do embrutecimento moral que nos permite viver na sociedade brasileira como ela é, há um embrutecimento intelectual que nos impede de entender a realidade ou nos faz usar uma lógica esdrúxula toda vez que tomamos decisões. Não conseguimos entender a nossa estrutura de classes, tanto que inventamos o conceito de "carros populares"; nem a estrutura de nossa economia, tanto que falamos em meio ambiente e gastamos bilhões de reais do setor público para aumentar as vendas de automóveis; nem o funcionamento de nosso sistema judiciário, tanto que temos surpresas com as prisões de pobres que roubam manteiga e a libertação de ricos que roubam bilhões; não entendemos mais como funciona a política, tanto que as posições de um dia não valem no outro, o prometido na eleição não vale no governo.

O embrutecimento termina nos dando saudades do tempo descrito por Victor Serge. Havia naquele tempo, pelo menos, o sentimento heróico do risco do fuzilamento. Talvez a democracia seja nossa única conquista, livrando-nos dos fuzilamentos, mesmo assim, não há um adulto pensante neste País que alguma vez não tenha achado que pode ser assaltado com todas suas consequências, inclusive o fuzilamento por policiais perseguindo bandidos ou por balas perdidas entre eles.

Difícil escolher entre o risco do fuzilamento ou o risco do embrutecimento. O primeiro tira a vida de um ser humano, o outro a dignidade de ser humano. O primeiro exige coragem física, o segundo rouba a coragem intelectual e moral.

Que 2009 chegue sem o risco e sem o embrutecimento. E que o fim do embrutecimento nos dê a lucidez para entender a realidade e formularmos alternativas, e uma ética que nos faça ter coragem intelectual e moral.


Cristovam Buarque

Professor da Universidade de Brasília e Senador pelo PDT/DF
 

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