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Sim. Têm sido construídas de acordo com a necessidade local.
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Não. Só as obras dos estádios avançam.



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"O Nordeste tem muita água", afirma João Suassuna
Postado em Biodiversidade em 29/10/2009 às 18h35
por Redação EcoD
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João Suassuna estuda a questão hídrica do semi-árido/Foto: Divulgação/Fundaj

O engenheiro agrônomo João Suassuna é um dos especialistas mais respeitados do Brasil quando o assunto é a hidrologia do semi-árido, principalmente em relação ao Nordeste Seco do país, região que o também líder-parceiro da Avina estuda há mais de uma década. Nesta entrevista ao portal EcoDesenvolvimento.org, ele relata parte de sua trajetória como pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, defende a criação de cisternas e critica veementemente o projeto de transposição do Rio São Francisco.

EcoD: Como é que se deu a trajetória profissional do senhor até aqui?

João Suassuna: Eu terminei meu curso acadêmico em 1974. Depois trabalhei durante sete anos no Ibama. Já no início dos anos 1980, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) implantou em Brasília uma coordenação de energia (setor que do final dos anos 1970 até os 80 era prioridade nesse país...), e eu fui convidado a trabalhar nessa área com pesquisas sobre a biomassa, carvão e lenha vegetal, por exemplo. Então trabalhei em Brasília cerca de 10 anos, depois fui transferido para a Agência Nordeste do CNPq, em Recife, para trabalhar num programa de difusão de tecnologia em nível de produtores de baixa renda.

EcoD: É aí que começa o teu interesse pela água no Nordeste?

João Suassuna: Exatamente. Este trabalho junto aos pequenos produtores ampliou minha visão sobre as questões hídricas do Nordeste, como por exemplo levar a água para uma região onde aparentemente não tem. Foi aí que a minha trajetória evoluiu. Mas antes disso vale destacar que a Agência Nordeste do CNPq acabou extinta na gestão do então presidente Fernando Collor de Mello. Então, nos deram a opção de sair de Brasília e migrar para uma instituição federal vinculada ao Ministério da Educação (MEC), foi então que cheguei a Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj).

EcoD: Que conta com pesquisas importantes sobre o desenvolvimento sustentável.

João Suassuna: Isso. O forte da Joaquim Nabuco é a área social. Lá, eu comecei a desenvolver um trabalho voltado para o convívio com o semi-árido e, numa dessas vertentes, tratamos das questões hídricas do Nordeste Seco, e mais especificamente da transposição do Rio São Francisco.

EcoD: E o senhor critica bastante esse projeto. Por qual razão?

João Suassuna: Porque o Nordeste tem muita água. Para você ter ideia, o Nordeste acumulou, em suas represas, algo em torno de 37 bilhões de metros cúbicos d’água – é o maior volume de água represada em regiões semi-áridas do mundo. O que nós não temos ao certo, é uma política específica que faça com que esta água que já existe seja distribuída para as torneiras das populações. E é nesse cenário que o governo federal quer trazer a água do São Francisco para abastecer as principais represas do Nordeste e fazer com que haja o que eles chamam de “sinergia hídrica”.

EcoD: Qual é o significado dessa expressão?

João Suassuna: O impedimento de que as represas sequem. Mas o que precisa estar claro é que o Nordeste tem grandes represas que jamais secarão, mesmo com o uso contínuo dessa água. Então se a água do São Francisco abastecer as principais represas da região, ela acabará sendo usada de maneira errada.

EcoD: Por que?

João Suassuna: Porque essa água não vai resolver os problemas de quem mais precisa: a população difusa do Nordeste. E olhe que estou falando de algo em torno de 10 milhões de pessoas, que no exacerbar de uma seca passam sede e fome.

EcoD: Nesse caso, qual alternativa o senhor propõe?

João Suassuna: Para problemas difusos, você precisa de soluções também difusas. Ao cair nas grandes represas, a água do São Francisco vai favorecer ao grande capital. Lá em Fortaleza, o governo do Ceará está construindo uma siderúrgica que sozinha vai consumir um volume de água capaz de suprir a necessidade de um município de 90 mil habitantes. Então se a água do São Francisco cai na Barragem do Castanhão, que é a maior represa do Nordeste, e que já há um canal que a liga até o Porto de Pecém, lógico que esta água irá abastecer esta siderúrgica. É aí que entra o que nós consideramos como a “indústria da seca”. Estão prometendo abastecer 12 milhões de pessoas no Nordeste com a água do São Francisco, e não vai acontecer isso. Essa água será utilizada para o agronegócio, e é aí que temos investido o nosso trabalho. Nós temos 74 artigos publicados na internet denunciando essa realidade.

EcoD: A construção de cisternas é uma boa alternativa?

João Suassuna: Sem dúvida. Não é um canal de transposição que vai resolver os problemas socioeconômicos dos que mais precisam, no caso, a população difusa. Ora, se hoje, nas margens do São Francisco você já tem problemas de desabastecimento, não é um canal que vai receber tal impasse, porque nesse projeto não há a previsão de uma distribuição razoável dessa água para resolver o problema. Simplesmente não há.

Por intermédio da Agência Nacional das Águas (ANA), o governo federal editou o Atlas Nordeste de Abastecimento Humano de Água, que busca o abastecimento para 34 milhões de pessoas. Esta sim é uma grande ideia que está sendo implantada. Abrange um número muito maior de municípios e, pasme: custa a metade do que está previsto na transposição do Rio São Francisco. Esse projeto atende o problema de desabastecimento para os municípios até 5 mil habitantes. De que forma? Com a água que já existe na região, através da adução das águas já existentes nas represas, nos poços, enfim.

EcoD: E o que vem a ser a adução?

João Suassuna: Significa a utilização de tubulações para recalcar essa água, abduzi-la para as populações. Isso resolve o problema de 34 milhões de pessoas da área urbana. Para a área rural, referente às comunidades difusas, que moram nos pequenos lugarejos, grotões, pés de serra, existem alternativas, como as que vem sendo trabalhadas pela ASA Brasil – que desenvolve um programa de 1 milhão de cisternas na região seca do Nordeste. Esse programa já tem cerca de 300 mil cisternas implantadas. Uma cisterna de 16 mil litros resolve o problema de uma família de 5 pessoas durante os oito meses sem chuva na região. O Nordeste seco concentra suas chuvas quatro meses e nos oito meses restantes não chove, então, a cisterna rural abastece essas pessoas com água para beber e cozinhar durante oito meses. Nós temos que incentivar esse tipo de iniciativa, e não um projeto que vai trazer a água do São Francisco, que fica a 500 km do local de consumo, com preços exorbitantes.

EcoD: O senhor também é um defensor das fontes renováveis de energia. Já pesquisava a biomassa vegetal há 30 anos, não é mesmo?

João Suassuna: Verdade. É como eu disse, na época em que a energia era prioridade nesse país. Continuo defendendo essas alternativas aos combustíveis fósseis. O biodiesel também, já que ele também pode ser produzido a partir de oleaginosas como a mamona, a própria soja e o álcool combustível. Fui contra a proposta de implantação da cana de açúcar irrigada no Nordeste Seco para a produção de etanol. Caso acontecesse, seria um desastre. Ainda bem que houve o zoneamento da cana, o que isentou aquela região dessa proposta.

EcoD: Aquele anunciado pelo ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, recentemente?

João Suassuna: Exato, em parceria com a Embrapa. Tive conhecimento que projetos nesse sentido seriam implantados no Oeste de Pernambuco, por exemplo, algo em torno de 80 mil hectares de cana de açúcar, com a água do São Francisco. Se hoje já não tem água do São Francisco para abastecer esse povo. Como é que eles querem tirar mais água para irrigar? E a gente sabe que a irrigação é que leva 70% do volume das águas extraídas dos rios. Seria um crime.

EcoD: João, o portal EcoDesenvolvimento.org agradece a tua entrevista.

João Suassuna: Eu é que agradeço.



Tags: Biodiversidade , Ciência e Tecnologia , Economia e Política , Energia
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sinergia hídrica

Comentado por Paulo Afonso da Mata Machado em 25/11/2009 17:42

Com relação ao projeto de transposição de águas do São Francisco para o Nordeste Setentrional, chamado pelo Governo de Projeto de Integração de Bacias, penso que a discussão se o projeto deve ou não ser executado já está vencida. O assunto agora é qual a melhor forma de se executar essa transposição.
O Projeto de Integração de Bacias tem um erro grave de concepção: ao invés de criar rios artificiais, que ajudariam a amenizar as condições ambientais em seu percurso no semi-árido, optou por criar canais de concreto armado, indicando uma falta de visão de futuro.
O Projeto visa a reter o homem na terra. Particularmente com relação às margens dos canais, onde o Incra fará distribuição de terras, espera-se um grande aumento populacional. É possível que novas cidades cresçam as margens dos eixos norte e leste.
Para onde escoarão o esgoto e a drenagem pluvial das comunidades que surgirão às margens desses eixos? Certamente será para os canais, provocando inundações. Não adiantará nem mesmo fazer campanha pela revitalização dos eixos, visto que não adianta plantar mata ciliar à margem de canais de concreto armado.
Ainda está em tempo de se rever tal política. Como a construção de canais em solo é muito mais barata que a construção em concreto armado, tenho a certeza de que será possível um acordo com as empreiteiras, baixando o custo da obra. Mas, se isso não for possível, qualquer coisa é preferível ao encaixotamento de mais de 700 km de rios (ainda que artificiais).
Como subsídio a esta argumentação, segue endereço de Isabel Regina de Sousa Pereira e de Apolo Heringer Lisboa, coordenador do Projeto Manuelzão:
Canalizar córregos e rios é solução ou mais um problema?
Há mais de meio século as cidades da Europa canalizaram e retificaram seus rios e córregos com o objetivo de se protegerem contra as enchentes que ocorriam regularmente.
Há bem menos tempo São Paulo e Belo Horizonte também fizeram a mesma coisa, sem perceber que estavam contribuindo para piorar o problema das enchentes e privando as cidades da beleza dos rios.
Hoje, na Europa, a maior parte dos rios e córregos já estão sendo revitalizados, ou seja, as canalizações já estão sendo desfeitas e devolvidas as curvas originais dos rios. Para diminuir as enchentes e trazer o peixe de volta.
O que levou as cidades europeias a tomarem a decisão de devolver a forma original a seus rios e córregos foi ter sofrido na pele o mesmo problema de enchentes que hoje são Paulo e Belo Horizonte enfrentam.
É sinal de inteligência aprender com os erros e evitar a reincidência. Por que gastar fortunas em obras de canalização, se já ficou comprovado pela história que isso não resolve o problema de enchentes e acaba com as áreas de lazer?
A maioria de nossas cidades teve um crescimento desordenado e uma ocupação crescente do leito maior do rio, o que tem levado muitas prefeituras a tentarem resolver o problema com a canalização e retificação do mesmo.
A canalização aumenta a velocidade da água e, consequentemente, o seu poder de destruição a jusante, propicia a ocupação e a utilização de áreas sujeitas a inundação, além de exterminar peixes, pássaros e a vegetação dos rios e das baixadas.
Precisamos mudar nossas referências. A história está aí. Não temos que cometer os mesmos erros de São Paulo e de outras cidades, não precisamos desaparecer debaixo d'água para concluir que canalização só faz piorar o problema das enchentes. Antes das canalizações, as canalizações atingiam apenas as áreas próximas dos rios. Depois delas, as canalizações começaram a atingir bairro inteiros, destruindo casas e matando pessoas, como temos visto nos noticiários.
O Projeto Manuelzão estabeleceu a Meta 2010 com o objetivo de navegar, pescar e nadar no rio das Velhas em sua passagem pela Região Metropolitana de Belo Horizonte até o ano de 2010.
As canalizações poderão ser o maior obstáculo para a concretização dessa meta, ainda mais em rios cheios de esgoto "in natura".
Seja nosso parceiro, não canalize, não aceite canalização em sua cidade. Não podemos aprisionar a natureza num canal. Ela reage violentamente.
O esforço de todos, ações inteligentes e políticas ambientais responsáveis são fundamentais para a harmonia entre o homem e a natureza.
Não queremos que as coisas fiquem como estão. Propomos não canalizar rios, mas tirar os esgotos dos rios. Propomos diminuir o cimento nos quintais, o cimento e o asfalto dos estacionamentos, de ruas pequenas dos bairros e de condomínios. Asfalto só para as avenidas e estradas, pois há outros pisos melhores para a infiltração da água. Às vezes, a enchente de uma cidade vem dos erros cometidos em municípios rio acima, como o desmatamento, os movimentos com terra e areia e a ocupação urbana, que vão diminuindo o leito dos rios. É uma bomba hidráulica que a canalização não resolveu em São Paulo, no Rio de Janeiro ou em Belo Horizonte.
Há bons exemplos de povos que aprenderam com a natureza a respeitar os rios e a lidar com a água. A água da chuva deve infiltrar no solo onde ela cai e o solo deve estar preparado para isso. Deslocamento anômalo de água carrega solo e contribui para as enchentes. As baixas de expansão dos rios e as lagoas marginais que a natureza produziu durante sua história, os seres humanos destruíram ou ocuparam indevidamente. Esses espaços precisam ser recuperados ou substituídos por outros, em áreas rio acima. A natureza não perdoa as agressões que sofre. A ignorância das leis naturais é nosso maior pecado ambiental. A solução é aprender com os mecanismos de controle que a própria natureza desenvolveu. Vamos, assim, economizar vidas e dinheiro.
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