AUTORES:
José Roberto Kassai
Rafael Feltran-Barbieri
Francisco Carlos B. Santos
Luiz Nelson Guedes de Carvalho
Yara Consuelo Cintra
Alexandre Foschine
TEMAS RELACIONADOS: Biodiversidade, Economia e Política, Universidades
INTRODUÇÃO:
Foram necessários milhares de anos para que a humanidade atingisse o seu primeiro bilhão de habitantes, o que ocorreu mais precisamente em 1802 segundo dados obtidos da Organização das Nações Unidades - ONU (www.un.org). Nesses últimos dois séculos houve um crescimento exponencial, atribuído ao aumento da produção de alimentos e às melhorias nas condições de saúde e de saneamento básico e, segundo estimativas, a população mundial pode atingir 9 bilhões em poucas décadas, com aumento de um bilhão de habitantes a cada 15 anos.
Essa população terá de comer, vestir-se, morar, locomover-se, aquecer-se e, para manter o nível atual de consumo de recursos, considerados escassos e em parte não renováveis, continuará emitindo os gases que provocam o efeito estufa (GHG)1, que por conseqüência, contribuem para o aquecimento global. A Agência Internacional de Energia estima que em 2050 a necessidade energética demandada pela população global deverá ser 110% maior que a observada em 2004, enquanto o crescimento do uso do petróleo será de 30%. (IEA, 2007)
Markovitch (2006, 13), ex-reitor da Universidade de São Paulo, em seu livro “Para mudar o Futuro - mudanças climáticas, políticas públicas e estratégias empresariais”, diz que algumas conclusões assustam, e ressalta os questionamentos em que pesquisadores e estudiosos estão se debruçando:
“...aquecimento global afeta a saúde humana e a oferta de alimentos? Em que intensidade o uso de energias fósseis agrava a concentração de gases de efeito estufa? Quais as alternativas para estabilizar este nível de concentração? Qual a probabilidade de elevação dos níveis do mar e quais as áreas mais vulneráveis? Como decisões de nível local, regional ou nacional resultam em mudanças climáticas globais? Como reduzir os impactos de hábitos de consumo insustentáveis
Com isso, a pergunta que fica é: “Os filhos e netos desta atual geração irão pagar esta conta? Ou é possível tomar medidas coletivas para minimizar esse passivo ambiental?” Os autores desta pesquisa se reuniram diante dessas duas questões e acreditam em ambas as hipóteses; ou seja, medidas serão tomadas pelas nações para atingirem um desenvolvimento sustentável, a exemplo do protocolo de Kyoto, e as gerações futuras terão que arcar com o saldo desta conta, ainda que deficitária.
O protocolo de Kyoto é um tratado internacional, por força do qual os países desenvolvidos têm a obrigação de reduzir a emissão dos seis GHG (dióxido de carbono-CO2, metano-CH4, óxido nitroso-N20, perfluorcarbonetos-PFCs, hidrofluorcarbonetos-HFCs, hexafluoreto de enxofre-SF6) em, pelo menos, 5,2% em relação aos níveis de 1990. Negociado em Kyoto no Japão em 1997, foi aberto para assinaturas em 16/03/98, ratificado em 16/03/99, e entrou em vigor em 16/03/2005; os países devem cumpri-lo a partir de 2008 até o ano de 2012, com efetivas reduções ou meios alternativos como investimentos em mecanismos de desenvolvimento limpo (MDL)2 e créditos de carbono.
Assim, de modo genérico, o problema objeto deste estudo é identificar essa conta que cada cidadão de todas as nações terá arcar, convertendo informações de natureza qualitativa em informações de natureza monetária ou contábil.
Neste contexto, o objetivo deste trabalho é elaborar o balanço patrimonial das nações, isto é, dos principais países e do planeta consolidado e, reunindo informações de natureza multidisciplinar, propor a classificação do que seriam os ativos, os passivos e o patrimônio líquido, de acordo com os seus recursos naturais e respectivas capacidades de carbon sequestration.
Os países escolhidos para compor a base de dados desta pesquisa são representantes do BRIC (Brasil, Rússia, Índia, China) e de países desenvolvidos da América, Europa e Ásia (EUA, Alemanha e Japão). A amostra representa 32% da área emersa do planeta, 50% da população mundial, 68% do produto interno bruto (PIB) mundial e envolve os principais blocos econômicos, como a União Européia (UE), Mercado Comum do Sul (MERCOSUL), Cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico (APEC), Tratado Norte Americano de Livre comércio (NAFTA) e Área Livre de Comércio das Américas (ALCA). Curiosamente, contém os cinco “monster country” (KENNAN, 1994), isto é, países com territórios continentais, populações gigantescas e com missões importantes no futuro da humanidade.
Os cenários futuros serão os estabelecidos pelo Intergovernamental Panel on Climate Change (IPCC) da Organização das Nações Unidas (ONU), mais especificamente as previsões constantes dos relatórios Special Report on Emission Scenarios (SRES) A1B1 e A2B2, e com refinamento propostos neste trabalho, referentes a simulações de outras variáveis na questão de seqüestro de moléculas de carbono, como: tipo de florestas, desmatamento e uso de tecnologia.
A equação básica da contabilidade (ativo menos passivo é igual ao patrimônio líquido) orientará a mensuração das variáveis envolvidas, pois traduz a lei de equilíbrio entre os débitos e créditos, entre as origens e aplicações, entre as causas e os efeitos. E, ao invés de registros analíticos em livros diários, será utilizado o método “inquired balance sheet” ou “balanço perguntado” (KASSAI, 2004), uma técnica que permite elaborar relatórios contábeis em situações de escassez e imprecisão das informações, a exemplo do que ocorrem nas micro e pequenas empresas.
A hipótese inicial é de que os países mais desenvolvidos tenderiam a apresentar contas deficitárias, passivo a descoberto, ou patrimônio líquido negativos.
Como seriam os balanços desses países e o consolidado para o planeta? Qual a classificação do país que mais emite CO2 na atualidade? Como ficaria a situação per capita de cada cidadão? Essas são questões que orientam este trabalho.
É neste contexto que a presente pesquisa se insere. Como introdução aos aspectos metodológicos, esta pesquisa se caracteriza como de natureza descritiva e exploratória, com a obtenção de informações de bancos de dados oficiais, revisões bibliográficas e definições de alguns constructos que possibilitem atingir o objetivo almejado, ou seja, a contabilização dessas contas.
O trabalho se justifica pela importância das questões envolvidas e, apesar da hipótese pessimista, os relatórios contábeis elaborados permitirão análises e interpretações sobre o futuro das nações. Da mesma forma como são utilizados nas reuniões empresariais, poderão contribuir para o processo decisório, desta vez por parte de cada cidadão ou gestor planetário e, compartilhando-se da opinião de MARCOVITCH (2006, 26) “com um único propósito: mudar o futuro e permitir a sobrevivência da espécie humana, revigorando o conceito de que o homem também habita o mundo, e não somente sua casa, cidade ou país.” |